Resenhas

Tinariwen – Emmaar

Novo disco da banda se mostra estranho e irresistível

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Ano: 2014
Selo: Anti/Wedge
# Faixas: 11
Estilos: Blues, World Music
Duração: 49:21
Nota: 3.5
Produção: Patrick Votan

É comum vermos algumas bandas de Rock posando descoladamente em desertos, como prova de que estão em viagens espirituais ou em momentos de reorientação artística. U2, Depeche Mode, RPM e The Killers, só pra mencionar alguns, já registraram fotografias nessa situação, como se estivessem passando por privações e o tal “next step” fosse a consequência natural desse processo. Ouvindo o som e conhecendo a história de Tinariwen, é possível perceber o quanto o presença estéril do deserto pode ser decisivo para uma obra artística.

A começar pelo nome: Tinariwen significa “espaço vazio”, ou mesmo “deserto” em alguns idiomas subsaarianos. O grupo se originou na Argélia, em 1980, formado por malineses, que retornaram para seu país nos anos 90. Em termos de Saara, entretanto, não parece haver uma divisão geopolítica entre as nações circundantes, a região toda se unifica em meio à desolação e às intempéries naturais. Como habitantes do lugar, os integrantes mais velhos da banda, como o guitarrista Ibrahim Ag Alhabib, chegaram a testemunhar o assassinato dos próprios pais em 1963, em meio a um conflito local. Na adolescência, ele teve acesso a outras bandas tuaregs e à música de gente como Elvis Presley, Santa, Dire Straits e Bob Marley, ingressando definitivamente na música.

Demorou um bom tempo para o Tinariwen se tornar conhecido fora da região do Saara. Após um período em que serviram ao exército líbio, os integrantes do Tinariwen retornaram ao Mali e chamaram a atenção do grupo francês Lo’Jo, que participava de um festival em 1998 e encontrou com dois integrantes da banda malinesa. No ano seguinte, Tinariwen viajava para a França para tocar com o Lo’Jo sob o nome de Azawad. A partir daí, o nome do grupo estava definitivamente no mapa da World Music e não tardaria a gravar seu primeiro e sensacional disco, Radio Tisdas Sessions, de 2001, registrado na emissora de rádio do mesmo nome, em pleno Saara, mais precisamente, na cidade malinesa de Kidal. Pode parecer estranha a existência de uma banda tão exótica no circuito mundial globalizado, ainda mais se pensarmos que o Tinariwen coleciona apresentações em festivais de prestígio como Roskilde, Womad, Coachella e Glastonbury, pra ficar apenas nos mais conhecidos, a partir do lançamento de discos como Aman Iman (2007) e Imidiwan (2009).

Mesmo após décadas em atividade, o grupo só havia registrado gravações amadoras para o mercado local. Com o lançamento de Radio Tisdas Sessions, a fama da banda correu o mundo e eles chegam agora ao sexto disco. É o primeiro que gravam longe do Saara, mas não abriram mão do elemento estéril em seu processo criativo. Com a produção de Patrick Votan, eles se mudaram para uma casa no deserto de Jushua Tree, perto de Los Angeles, por conta da instabilidade política no Mali. Ali os integrantes da banda, sob o comando do guitarrista Ag Alhousseyni e do baixista Eyadou Ag Leche, empreenderam mais uma leitura personalíssima dos sons tristes do deserto. Talvez por não estarem na combustão espontânea dos acontecimentos ou pela presença de “amigos-fãs” como o guitarrista do Red Hot Chili Peppers, Josh Klinghoffer e o rabequeiro Fats Kaplin, que Emmaar não seja tão agudo quanto álbuns anteriores.

Não é por falta de engajamento e comprometimento com a música enquanto libelo contra a opressão, como diz a tradução de um verso da percussiva canção de abertura Toumast Tincha: “The ideals of the people have been sold cheap, my friends / A peace imposed by force is bound to fail / And gives way to hatred”. As guitarras se entrelaçam com as percussões e o baixo, servindo de moldura pra os cânticos ininteligíveis em idioma tuareg, mas que, de alguma forma estranha, se conectam com nossos sentidos. Belos exemplos estão em Koud Edhaz Emin, Tahalamot e na melhor canção do disco, a contemplativa Arheg Danagh. Estranho e, por que não, irresistível.

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ARTISTA: Tinariwen
MARCADORES: Blues, World Music

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.