Resenhas

Todd Terje – It’s Album Time

Com atmosfera retrô-futurista, produtor consegue criar narrativa festeira em seu aguardado primeiro álbum

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Ano: 2014
Selo: Olsen Records
# Faixas: 12
Estilos: Dance Music, House, Nu Disco
Duração: 59:10
Nota: 4.0
Produção: Todd Terje
SoundCloud: /tracks/32850380
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fits-album-time%2Fid806267243%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

Todd Terje é um DJ e produtor norueguês muito respeitado na cena escandinava e europeia da Dance Music. Há mais de dez anos, ele vem trabalhando em épicos remixes de faixas clássicas de nomes como Chic, Michael Jackson e Paul Simon, sempre adicionando um toque contagiante da Disco Music. Além das reedições, Terje tem lançado singles e EPs muito bem falados nos últimos anos, o que aumentou a ansiedade para seu primeiro álbum que, desde seu nome, já chega como quem quer botar fogo na festa, It’s Album Time.

O disco traz uma atmosfera retrô-futurista, executando com elementos do presente, os sons, o clima e o groove do passado. Assim como no disco OutRun, de Kavinsky, parece palpável imaginar a obra como a trilha de um personagem, uma espécie de espírito da boa vida, aquele cara divertido, engraçado, que está em todas as festas, mas é misterioso, já que ninguém conhece muito bem sua vida fora daquele ambiente. A capa do disco ilustrada por Bendik Kaltenborn traz a figura deste rapaz – que na verdade é o próprio Todd Terje – e é uma perfeita ilustração do clima que vem após o play.

O som de Terje é divertido e evidencia duas de suas maiores qualidades, um domínio perfeito do ritmo, algo essencial em seu trabalho e que deve ter sido desenvolvido com a produção de seus remixes e a sua variedade de influências. O produtor dá pinta de ser uma daquelas enciclopédias vivas da música, no caso, da Dance Music, Disco, Funk, Jazz e também da música Eletrônica contemporânea.

A ligação entre passado e futuro é algo que permeia toda a audição. O clima retrô fica mais evidente em duas das melhores faixas do disco, Svensk Sas e Alfonso Muskedunder, ambas descontraídas, num clima latino, meio O Máskara, com um piano grave bem marcado e inserções que supreendem, como palmas, gritos e bongôs ou algo parecido. Estes elementos inusitados soam como uma brincadeira de Terje, trazendo referências que não parecem fazer mais parte de nosso cotidiano musical e que nos lembram de como eram divertidas, apresentando uma alternativa de “música de festa” para uma geração acostumada com outro tipo de diversão.

Ao mesmo tempo, o clima futurista está muito bem representado em outras, como Intro (It’s Album Time), Preben Goes To Acapulco e Strandbar, que aproximam seu som de nomes como Chromeo ou Daft Punk. As linhas de baixo vem acompanhadas de sintetizadores que criam um clima perfeito de ficção científica. Mas, mesmo nestes momentos, o músico faz questão de inserir um piano bem Disco para lembrarmos o quanto ele gosta de reverenciar esse coolness do passado. Para entender melhor, pense em figuras como Mayer Hawthorne ou Wilson Simonal numa festa na piscina em Palm Springs, nos anos 60 e 70, com um Martini na mão.

Uma das faixas mais marcantes no entanto, acaba sendo Johnny and Mary, cover de uma balada do inglês Robert Palmer, cantada pelo clássico Bryan Ferry. A faixa é a única não animada do disco e a participação do cantor da Roxy Music traz instantaneamente uma nostalgia de faixas como Slave To Love ou Don’t Stop The Dance, que provavelmente seus pais já tocaram para você, caso não tenham contado que foi com uma delas que deram seus primeiros beijos. A canção funciona como um momento de lucidez dentro de uma festa que não acaba. É aquele momento no meio da madrugada em que você acorda do transe e se dá conta de que existe vida normal fora daquele universo paralelo festeiro.

É neste momento também que é possível perceber a única “falha” do disco – apesar de proposital e contrária à proposta descontraída pregada por Terje – que é uma certa falta de ambição. Nada que torne o trabalho menos memorável ou comprometa a audição, mas, após uma hora de música, fica uma sensação deprimente de que aquele personagem, o espírito da boa vida, está preso naquele clima para sempre, o que torna nossa relação com sua arte um pouco mais distante.

O produtor norueguês conseguiu com It’s Album Time criar uma narrativa completa que ilustra o estilo de vida que parece levar. Para quem curte este clima “chique ensolarado” e principalmente, acha que boa música serve para dançar, terá nas mãos um dos melhores lançamentos do ano.

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BOM PARA QUEM OUVE: Mayer Hawthorne, Daft Punk, Chromeo
ARTISTA: Todd Terje
MARCADORES: Dance, House, Nu Disco, Ouça

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.