Resenhas

Tony Njoku – YOUR PSYCHE’S RAINBOW PANORAMA

Terceiro disco do artista londrino-nigeriano é uma obra composta em parceria com o ouvinte, desafiando a “dificuldade” rotulada da música experimental

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Ano: 2019
Selo: Silent Kid Records
# Faixas: 14
Estilos: Experimental, Avant-Garde Pop, Psicodelia
Duração: 36'
Produção: Tony Njoku

Cada vez mais, há uma espécie de banalização do termo “experimental” dentro da música. Por vezes estereotipado como “música difícil de escutar” ou “inverso do Pop”, parece que seu emprego tem sido utilizado de forma cada vez menos pensada e mais como artifício de marketing. Sobre essas afirmativas, o artista e produtor londrino-nigeriano Tony Njoku tem especial preocupação, pois esta denominação acaba por injustiçar certas compreensões do gênero. Ao invés de torná-lo acessível ao público diverso, criam-se barreiras e preconceitos, impedindo de que novas formas de apreciação sejam estabelecidas. 

A relação de Tony com a música experimental começa desde antes de sua carreira começar, quando entrou em contato com ela aos 14 anos. Em entrevista, ele comentou que gostava do desafio que esse tipo de composição lhe causava, tornando o ato de escutar música muito mais ativo do que na música Pop. Assim, seus primeiros registros mostravam justamente essa tentativa de não facilitar as coisas para o ouvinte, trazendo à tona discos como H.P.A.C (2018), uma colagem sonora que provocava nos ouvintes uma espécie de catarse emocional envolta de temáticas como masculinidade tóxica. É justamente neste ponto, o da catarse, que Tony encontrou uma forma de produzir composições experimentais bastante ousadas mas que de uma forma ou outra pudessem ser material de identificação com os ouvintes. É aqui que nasce YOUR PSYCHE’S RAINBOW PANORAMA.

Terceiro disco de Tony Njoku, o trabalho teve seu título inspirado por uma instalação de nome similar do artista plástico Olafur Eliasson. Nessa, uma espécie de observatório circular foi montado em cima de um prédio, de onde era possível enxergar diferentes pedaços da cidade através de filtros de cores e diferentes janelas. Ao escutar este trabalho, percebemos que não é apenas o título que serviu de referência para as composições, uma vez que escutar as irregulares e complexas sonoridades do disco evoca sentimentos igualmente complexos, como se fossem janelas e filtros. Assim, Tony coloca em evidência muito mais a experiência subjetiva do ouvinte e as emoções que isto pode suscitar do que uma narrativa concreta que possa nos guiar. Não há manual de instruções para decifrar este disco porque isso é exatamente o que Tony não quer. O artista pede do ouvinte que os espaços entre as faixas sejam completados com nossa subjetividade pois assim, a apreciação é construída a partir das nossas emoções.

Em entrevista, Tony contou que o processo de composição das faixas foi algo bastante rápido, como se ele quisesse conservar o aspecto mais fiel da experiência catártica. No geral, cada faixa demorava um dia para ser feita, de seu rascunho até a versão final. Entretanto, a edição posterior do disco é o que tomou mais tempo do processo. Segundo o artista, o objetivo disso era o de pensar na melhor maneira de colocar sua coleção de catarses em uma forma que pudesse estimular as emoções do ouvinte a serem despertadas e, em seguida, colocá-las como parte integrante do disco. É um trabalho tanto de produção musical como de arqueologia psicológica.

Apesar de não ter uma narrativa a ser seguida, a ordem das música pode facilitar ou orientar um ouvinte que necessite de pontos de referência para adentrar nesta jornada. Na primeira faixa “NAIVE & APPREHENSIVE”, timbres de vibrafone estão presentes no começo do disco, sugerindo alguma sensação de inocência e suavidade, mas que logo é quebrada com uma descompassada batida e vocais desarmonizados. A referência de Arca é logo percebida em “DISTURBED” com um sintetizadores distorcidos e oscilantes, dando um toque perturbador tal qual o título da música sugere. 

“GLORIOUS” traz um flerte interessante com o R&B ao mesmo tempo que mesclando os vocais quase líricos de Tony, que nos acompanham por quase todo o álbum. “RAPTURE”, por outro lado, abre mão do caos, nos orientando em uma espécie de batida Hip Hop do começo dos anos 2000 e que logo se confirma em um flow de Rap bastante intenso. Por fim, “UNNERVED” é, segundo Tony, um relato de uma crise de pânico que vem sorrateira porém desorientante, tal qual a música progride em seus arranjos.

Escutar YOUR PSYCHE’S RAINBOW PANORAMA é uma experiência atípica e que, por mais que requeira uma atividade constante do ouvinte, tira o estigma de “difícil de escutar”, repensando as fronteiras do experimental. Tony Njoku produz um labirinto catártico e nos coloca no centro sem qualquer instrução. Talvez por conta dessa jornada sentimos como se fossemos produtores desse disco também, já que parte da construção é solidificada por nossas vivências. Tony quebra a quarta parede para o mundo da música e é difícil prever o que cada pessoa pode perceber desse registro.

(YOUR PSYCHE’S RAINBOW PANORAMA em uma faixa: “UNNERVED”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.