Resenhas

Toro Y Moi – MAHAL

A partir de mescla entre psicodelia e indie rock, novo trabalho de Chaz Bear comprova sua força criativa por meio de experiências sinestésicas

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Ano: 2022
Selo: Dead Oceans
# Faixas: 13
Estilos: Psicodelia, Indie Rock
Duração: 40'
Produção: Chaz Bear

No campo da neurologia, há uma concepção interessante: a sinestesia. Estudada por diferentes teóricos e médicos – como o neurologista Oliver Sacks em seu livro O Antropólogo em Marte –, este fenômeno consiste em uma configuração específica do cérebro que faz com que ele interprete de diferentes formas os sinais percebidos pelo nosso sistema sensorial. É uma espécie de confusão neurológica que provoca a percepção de vários sentidos de uma vez só. Assim, quando uma pessoa dotada dessa capacidade percebe um cheiro, por exemplo, seu cérebro pode interpretar isso de uma maneira visual, auditiva ou táctil. Não é propriamente considerada uma patologia, mas um modo de funcionamento diferente no qual é possível cheirar os sons, sentir as imagens, ver a aspereza das coisas etc. Apesar de afetar menos de 4% da população mundial, há alguns exemplos de músicos dotado dessa possibilidade neurológica, entre os quais estão Franz Liszt, Jimi Hendrix, Charli XCX e Lady Gaga. Se pudéssemos acrescentar mais gente apenas tomando como evidência a riqueza de uma discografia, Chaz Bear e o fantástico universo de Toro Y Moi certamente figurariam entre estes nomes.

Situado em um ponto de junção entre o design gráfico e a música, Chaz é um dos nomes mais importantes no cenário indie pós-2010. Um dos fundadores da música chillwave (cujo nome sempre soou um pouco pedante para Chaz), sua obra usa quase sempre o artifício das colagens para entregar diferentes universos sonoros. Seu primeiro disco, Causers Of This (2010) é o trabalho em que as colagens são mais perceptíveis, com uma fusão de samples que chama a atenção não só pela forma como as partes são unidas, mas pela curadoria de Chaz. Mesmo em discos posteriores, essa característica sempre serviu de norte criativo, seja de uma maneira mais coesa e branda (What For, 2015) ou utilizando um pouco do caos a seu favor (Outer Peace, 2019). É justamente a partir dessas colagens sonoras que Chaz nos entrega uma experiência verdadeiramente sinestésica. Suas canções não se bastam apenas em arranjos e timbres escolhidos, transbordando quase sempre para registros audiovisuais – com clipes e vídeos no YouTube passando a sensação de que Chaz traduz precisamente os sons em imagens. Entretanto, não é apenas nesse sentido que a sinestesia do produtor e músico se expressa. Ao lançar suas músicas como Toro Y Moi, e até mesmo em projetos paralelos como o dançante Les Sins, Chaz traz uma sensibilidade estética tamanha, que ele consegue atribuir sentidos sonoros e imagéticos a sentimentos não concretos – como por exemplo, a nostalgia, o acolhimento, o prazer e, em seu mais novo disco, MAHAL, o movimento.

Temos essa ideia de que, por estarem organizados cronologicamente, os discos e seus respectivos processos criativos seguem uma sequência precisa e ordenada durante a vida do compositor. Mas, no caso de Chaz, tudo parece vir junto e ao mesmo tempo – mais uma evidência da sua sensibilidade sinestésica. MAHAL foi lançado agora, mas é um projeto que vem sendo criado e organizado por Chaz desde 2014, época em que criava, simultaneamente, seu disco What For?. Isto poderia ser motivo para supor que ambos os trabalhos tenham uma sonoridade parecida, porém a realidade é bem diferente. Apostando em uma sonoridade mais caótica e pautada no movimento psicodélico da década de 1970, seu novo trabalho é uma tentativa de dar forma aos diferentes movimentos de sua vida – e aqui o termo pode ser interpretado de diversas maneiras dependendo do lugar em que focamos nossa atenção em MAHAL. Quando pensamos nessa estética sonora que foge dos anos 1980, o disco dá forma aos movimentos criativos de Chaz. Entretanto, quando nos direcionamos às letras do disco, cuja primeira leitura nos aponta para algo cotidiano e leviano como uma entrega de cartas, Chaz está focando no movimento físico do qual fomos privados durante a pandemia. Inclusive, em entrevista à NME, o produtor e músico fala sobre como só conseguiu terminar esse projeto por conta do tempo disponibilizado forçadamente durante o lockdown em 2020. Até mesmo a capa do disco evoca esse sentido de movimento, com um carro meio hippie que acaba se relacionando à estética psicodélica nessas 13 faixas.

Dessa maneira, MAHAL sai um pouco do escopo do disco para relaxar – como o refrescante Boo Boo, de 2018. Cada faixa tem seu próprio movimento e diferentes dinâmicas de nos fazer sentir, ver, cheirar, degustar e ouvir. A ignição de motor presente na primeira faixa, “The Medium, nos força a compreender o começo deste movimento em direção a uma explosão de distorções e delays, auxiliada por Unknown Mortal Orchestra. “Magazine” por sua vez, traz uma sensação não estática principalmente na forma como simula os defeitos técnicos de uma fita cassete – aquela oscilação de timbre típica. Outro talento de Chaz que ganhou, novamente, espaço é sua habilidade de compor grooves muito cativante, principalmente no timbre de “The Loop”, que já é sua assinatura oficial. Interpretada em parceria com Sofie Royer, “Clarity” é muito sutil no tipo de movimento que expressa, usando notas longas que se estendem pelas paisagens pintadas por Chaz. Por fim, “Days in Love” encerra o registro deixando os instrumentos soarem para sempre – uma metáfora para seu movimento criativo que vai continuar enquanto Chaz estiver vivo (quem sabe até depois disso).

MAHAL é, inegavelmente, um trabalho característico ­de Toro Y Moi e esta constatação se baseia não em um conjunto de escolhas estéticas que definem seu trabalho, mas na sensibilidade para traduzir sua música em diferentes sentidos. Repleto de movimentos de naturezas distintas – seja o nosso constante balançar de cabeça (presença obrigatória em todos os seus discos), ou na trajetória física que nos transforma –, este álbum é prova viva da força criativa de Chaz Bear. Assim, a escolha de ir para um lado mais psicodélico e vertiginoso faz sentido ao pensamos que apenas essa abordagem seria capaz de dar conta dos movimentos criativos, simultâneos, desenfreados e sinestésicos.

(MAHAL em uma faixa: “The Loop”)

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ARTISTA: Toro y Moi

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.