Resenhas

Touché Amoré – Lament

Com sonoridade explosiva, que dá sutis toques Pop à energia do Post-Hardcore, sexto disco do grupo explora um momento posterior ao luto, cheio de possibilidades e renovações

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Ano: 2020
Selo: Epitaph
# Faixas: 11
Estilos: Post-Hardcore, Screamo, Hardcore Melódico
Duração: 35'
Produção: Ross Robinson

O processo de luto não é fácil. Apesar de muitos tentarem dividi-lo em fases para fins teóricos, a realidade da coisa é muito mais complexa e angustiante do que supõem os livros. Remoemos sentimentos que nunca achamos que iríamos sentir na vida e a particularidade subjetiva torna praticamente impossível consolidar uma fórmula comum a outras pessoas. Mas e depois? E depois de movermos montanhas emocionais e mergulhar fundo em nossas questões, o que sucede depois do aparente fim? Esses são alguns pontos que o novo disco de Touché Amoré nos coloca.

Vindos de uma tradição melódica do Post-Hardcore canadense, o grupo é conhecido por empregar uma sonoridade que evoca sentimentos dos mais intensos. É uma precisa mistura de peso, angústia e catarse, uma que certamente deixou marcas importante na discografia da banda quando o disco Stage Four (2016) foi lançado. Foi neste trabalho que o vocalista Jeremy Bolm teve a oportunidade de escrever um magistral elogio fúnebre para sua mãe, que faleceu de câncer algum tempo antes da composição dessas músicas. Um processo de luto em que aquelas fases conhecidas se misturam em uma mensagem intensa e impactante. Agora, quatro anos depois, Touché Amoré abre as janelas de sua intimidade para mostrar o que acontece depois de um episódio tão arrebatador. O que sucede esta avalanche e o que resta de alguém que é tocado pela morte. A resposta se apresenta de uma forma simples, porém igualmente arrebatadora em sua execução: sucede a vida.

O título do sexto disco do grupo pode até sugerir um caminho mais triste e melancólico, mas Lament é muito mais do que isso. Em entrevistas recentes, Jeremy comenta que poderia escrever mais cinco discos sobre a morte de sua mãe, mas que isso não seria produtivo ou bom para ninguém na banda. Concomitante a isso, havia um sentimento de cobrança, de que ele nunca mais conseguiria escrever algo melhor do que Stage Four. Em entrevista à Vice, o músico contou que a luz para essas angústias veio de Brett Gurewitz, guitarrista do Bad Religion, que, ao ouvir isso de Jeremy, respondeu prontamente com: “você não tem que fazer um álbum melhor que aquele, apenas um álbum bom”. E é justamente isso que Touché Amoré busca nesse disco, permitindo-se encarar as coisas para além da sombra de seu antecessor. Lament são os primeiros passos em direção à vida – marcada pelo passado, mas não limitada a ele. Temos aqui um grupo capaz de olhar para os outros acontecimentos de sua vida com a mesma agilidade e intensidade com a qual olhara para algo tão trágico no passado.

De certa forma, a possibilidade de continuar caminhando se apresenta com firmeza na sonoridade do disco. Ainda estão presentes os gritos, riffs estridentes de guitarra e baterias explosivas que suscitaram tantas emoções nos fãs em quase 15 anos de atividade. Mas agora, há um elemento mais Pop, mais melodioso. Seria apressado dizer que este novo ingrediente deixa as músicas deste disco mais “suaves”, porque em Lament nada é tranquilo. O grupo ainda conserva a característica de nos tirar a todo instante da zona de conforto, seja pela agressividade dos vocais, pelo conteúdo das letras ou pela alternância entre Pop e Screamo, de sentimentos densos, conflitantes e pouco maniqueístas.

Em explosão ríspida, o disco se inicia com “Come Heroine”, uma maneira única de se escrever uma canção de amor com gritos intensos e frases como “Tomei meu lugar/Você me mostrou como estou mais suave agora”. “Reminders” traz uma influência forte do Hardcore californiano, ao mesmo tempo em que constantemente se lembra do amor que temos disponíveis, mesmo em momentos difíceis. “Savoring”, por sua vez, traz bateria agressiva (quase de Metal) para narrar como, por vezes, aquilo que achamos que vai nos salvar não é aquilo que precisamos (“Se estou perdido no mar, não é a praia que irá me salvar”). “I’ll Be Your Host” é a maneira como Touché Amoré narra o fim de um relacionamento, colocando o papel de um apresentador de TV para a pessoa responsável por acabar com a história do respectivo casal. O disco se encerra com “A Forecast”, um lamento no piano que fornece alicerce para que Jeremy nos deixe com a mensagem núcleo do disco “Não sei exatamente o que estou procurando, mas eu não poderia deixar de dizer essas coisas”.

O trabalho anterior certamente deixou uma grande e difícil sombra para ser superada, mas Touché Amoré consegue fazer isso com maestria. A morte da mãe de Jeremy certamente deixa ensinamentos para a banda, mas o momento presente é de seguir em frente. Lament não é sobre ficar feliz e tranquilo depois que um evento devastador nos atravessa. Mas entender que a vida inevitavelmente segue seu curso e que está tudo bem não estar bem. Não é um disco também sobre estar apenas triste, apelando para os estereótipos do Emo. É mais sobre ir vivendo o que for sendo.

(Lament em uma faixa: “Reminders”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.