Resenhas

TR/ST – The Destroyer – 2

LP é a continuação do registro lançado em abril deste ano e chega com pegada intimista quebrando paradigmas sobre o projeto

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Ano: 2019
Selo: Grouch
# Faixas: 8
Estilos: Synthpop, Darkwave, Eletrônica
Duração: 29'
Produção: Robert Alfons

Escutar TR/ST requer um grande suspiro prévio. O projeto do canadense Robert Alfons trouxe para o Synthpop um toque áspero e sinistro da música Industrial. Nesta combinação, o produtor combina estéticas opostas, trazendo à tona uma série de paradoxos emocionais que nos instiga no decorrer de seus registros até aqui. Desde sua perfurante estreia com o disco autointitulado de 2012, até o distótipo Joyland (2014), Robert construiu ambientes que são ao mesmo tempo inóspitos e convidativos. E é nesta constante alternância de sentimentos que seu talento vem à tona como mediador do caos. Agora, cinco anos depois de seu último lançamento, tudo aquilo que julgávamos conhecer (ou pelo menos compreender) foi jogado para fora e, talvez, seja necessário um suspiro ainda maior para encarar o dilúvio destruidor de The Destroyer – 2

Como o número do título sugere, este álbum é a continuação de seu disco de mesmo nome lançado em abril deste ano. Na primeira parte, TR/ST nos apresentou a faixas que se enquadraram dentro daquilo que esperávamos da estética construída em seus dois álbuns anteriores. Batidas dançantes, envoltas de uma estética industrial fantasmagórica, abuso massivo de sintetizadores distorcidos e um oscilante espectro emocional. Há tanto a dança como o lamento tanto quanto como uma celebração e, muitas vezes, os dois aparecem simultaneamente. Entretanto, o nome da obra sugeria que, de alguma forma, algo seria destruído e é justamente isso que conseguimos perceber na segunda metade do disco, lançado no começo de novembro.

O que antes era uma LP que se apoiava no Pop como estrutura principal, agora tem uma maneira diferente de tocar seu ouvinte. Em certa medida, Robert abre mão forma da fórmula dançante incessante de The Destroyer 1 e nos propõe uma experiência mais imersiva, se apoiando na Ambient Music com convicção. Assim, ao mesmo tempo que o disco contém singles destruidores e que nos deixam sem ar (“Iris”), o artista se permite integrar diferentes partes com interlúdios e faixas instrumentais, com o objetivo de conduzir o ouvinte por sua narrativa. Assim, o disco não é mas um compilado de faixas para se dançar, mas uma grande história com altos e baixos bruscos.

The Destroyer – 2 quebra a estrutura inflexível que Robert construiu até então em sua discografia. O nível de agressão dos instrumentos é diminuído, embora não suma totalmente. A constante distorção abre espaço para reverbs suaves e até mesmo instrumentos acústicos como o piano e bateria. Batidas eletrônicas incessantes compartilham o mesmo local que levadas de Rock, sendo as vezes totalmente dispensáveis para que o piano possa brilhar. Assim, com estes novos elementos, o disco também se torna um exercício de introspecção de TR/ST, no qual ele revê o que considerava imutável, explorando novos campos.

“Iris”, por exemplo, poderia ter seus versos tirados do disco disco anterior Joyland, mas seu refrão traz uma melodia libertadora, menos sufocante. Já “Darling” é arrastada, como uma respiração pesada e que vem acompanhada de um piano quase fúnebre. “cor” é um dos pontos críticos do álbum, na medida em que os sintetizadores substituem as letras na função de referencial do que sentir. “Shame” utiliza a mesma melodia de “Iris”, mas com um arranjo diferente, como se Robert nos mostrasse a possibilidade de sentir diferente perante um mesmo evento. “Slow Burn” encerra a destruição em um hino oitentista que faria inveja a Depeche Mode.

The Destroyer – 2 traz uma nova direção para a obra de TR/ST, feita de modo a compreender novas possibilidades mas também respeitar seu passado. É interessante ouvi-lo como conjunto com a primeira parte lançada anteriormente. Mas, uma audição solo também funciona perfeitamente e, talvez, até dispensa a primeira parte. Robert nos convida para revisitar suas seguranças e é muito provável que este exercício provavelmente mexa com conteúdos nossos. 

(The Destroyer – 2 em uma faixa: “cor”)

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ARTISTA: TR/ST

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.