Resenhas

Trickfinger – Trickfinger

John Frusciante grava disco Eletrônico experimental sem compromisso com guitarras

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Ano: 2015
Selo: Acid Test
# Faixas: 8
Estilos: IDM, Eletrônica, Experimental
Duração: 37:09
Nota: 2.5
Produção: John Frusciante

John Frusciante é um cara querido por um monte de pessoas. O maior contingente, é claro, é formado por fãs de Red Hot Chili Peppers, grupo no qual o sujeito se destacou no início dos anos 1990. As palhetadas negroides de John fizeram a delícia de muita gente que começava a ouvir Rock e achava o Funk Metal da banda o maior feito da Humanidade desde a invenção da roda. À medida que a década avançou, Frusciante saiu de cena, a princípio por problemas causados por dependência química e adotou um proverbial low profile. Recuperado mais tarde, John iniciou uma carreira solo semi-experimental, enquanto regressava aos Chili Peppers para Californication (1998) e By The Way (2002), saindo definitavamente em seguida.

Apesar de simpático, Frusciante é um músico não-Pop e cultiva este perfil intencionalmente. Seus álbuns trazem pequenos estudos sobre as possibilidades da guitarra em vários terrenos musicais contemporâneos e são indicados apenas para fãs inveterados. Seduzido pela House Music, pelos sintetizadores e demais engenhocas vintage Desde 2012, John vem ensaiando um disco totalmente Eletrônico, realizado sob o pseudônimo de Trickfinger, curiosamente, uma das alcunhas que ele recebeu por sua técnica no comando das seis cordas. O disco é um exercício de estilo e um momento de descontração para o músico. Não dá pra imaginar alguém aficcionado em música eletrônica que vá submergir nas canções que Frusciante compôs no comando de seus brinquedos eletrônicos e, cá entre nós, os mais dedicados fãs precisarão de paciência para apreciar os poucos méritos da empreitada.

Trickfinger, o disco, é um compêndio de oito canções que partem dos padrões criados pela House Music (surgida em Chicago, em meados dos anos 1980) e se entregam a experimentos que, infelizmente, tiram qualquer possibilidade de uma estrutura dançante se formar. Ouvir o resultado é maçante e perde o único potencial de curiosidade, que é, justamente, aferir se Frusciante tem algum jeito pra coisa. A escolha das faixas ainda desfavorece tudo, uma vez que a única canção com uma estrutura minimamente similar ao estilo é Phurip, a última do disco. Nela é possível aceitar que John tenha tentado a desconstrução dos padrões originais, mas optando pela manutenção de elementos familiares como alguma progressão de batidas ou o sample de vocais, todos devidamente ensopados por efeitos que dão a impressão que tudo era uma parede de tinta fresca quando foi dado como pronto.

As outras sete canções seguem por este caminho despovoado, experimentais o bastante para não haver conexão com nenhum público e anti-Pop o suficiente para impossibilitar sua existência longe da excentricidade. O único mecanismo que pode justificar a existência do disco é o fato notório de que Frusciante parece se divertir o tempo todo e brincar de dominar ferramentas que não conhecia, mas admirava há tempos. Deve ser interessante para alguém que está acostumado a se expressar em linguagens definidas há tempos obter acesso a um mundo novo de possibilidades.

Com mais jeito de experiência em âmbito privado, Trickfinger é indicado apenas para inveterados e curiosos. Num mundo em que não houvesse tanto acesso a canções e informações, talvez ele nem existisse. E ninguém sentiria tristeza por isso.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.