Resenhas

Trupe Chá de Boldo – Verso

Novo disco do grupo paulista celebra parcerias e insurgência

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Ano: 2017
Selo: Independente
# Faixas: 11
Estilos: Rock Alternativo, Afropop
Duração: 33:10
Nota: 4.0
Produção: Trupe Chá de Boldo

Há uma diferença fundamental entre “cover” e “versão”. O primeiro deseja reproduzir uma canção, procurando imitar os tiques e taques da gravação original, enquanto a segunda é uma tentativa de recriação, de apropriação por parte de um artista em relação à criação alheia. Este princípio regula a existência deste Verso, o quarto trabalho da carreira dos sujeitos que atendem pelo nome de Trupe Chá de Boldo. Podemos dizer que é um meio termo entre uma galera e uma banda, o que, pelo amor, não desmerece em nada o trabalho deles. Na verdade, a coexistência criativa de tanta gente a bordo de um projeto confere a ele um ar de democracia, uma aura de pluralidade, o que só pode ser um diferencial em relação ao que vemos por aí, especialmente em tempos de duetos que soam como bandas, de artistas solo que emulam sons de vários.

A Trupe não atende a esta lógica e faz música plural, especialmente afro-brasileira, com um pé na tradição e outro na reinterpretação dessas origens e raízes. A ideia do álbum é homenagear artistas que mantém vínculos criativos com o grupo em dez das onze faixas de Verso com apropriações intensas dos originais, buscando mudar e reinterpretar. É uma espécie de adaptação da lógica do grupo à ocasião em pauta. Os nomes que fazem parte desse contexto não são populares, pelo contrário: é quase um quem é quem do underground nacional, de gente que faz música de forma quase abnegada, cronistas de uma realidade desigual que teima em existir. Celebrá-los de forma tão respeitosa/anárquica é homenagem das maiores. Pélico, Tatá Aeroplano, Gero Camilo, Alzira E, André Abujamra e Iara Rennó estão entre este time.

O resultado é interessante e afirma a Trupe como uma instituição multifacetada em termos musicais. Temos um flerte prolongado com influências africanas e nordestinas em Entre O Mar E O Mangue, conferindo à canção um ar de triste alegria ou alegre saudade, algo contraditório em essência, mas que faz bem ao original de Alzira E e arrudA, interpretado por Fabiana Cozza, que tinha arranjo de fado. Uma moderníssima batucada de tambores, percussão e metais toma conta de We Need Nothing, de Abujamra, renascida neste atual processo de revisita às influências de um além-mar que era deixado em seu lugar há até bem pouco tempo. Fera Mastigada, de Negro Leo, tem uma levada de guitarras e baixo com acento Funk tradicional, bem feita, além de vocais femininos que evocam ecos do passado das canções de trabalho, algo bem bonito.

Meus Vãos, de Iara Rennó, é um dos momentos mais bem sucedidos do álbum, aproveitando a letra sensorial e intensa, inserindo-a num instrumental Dance Punk atual, mas que traz inserções de metais e mais adendos que dão um ar psicodélico bem interessante. Fiu Fiu, de Marcelo Segreto, tem um arranjo à capella, deixando o instrumental Funk do original de lado. Naquela Casa, de Pélico, com letra que enumera palavras e fatos de forma cíclica, recebe tratamento meticuloso e acento respeitoso, abrindo caminho para as duas últimas canções do álbum, a boa A Distraída, de Peri Pane e a singela Canção do Mundo Maior, de Juliano Gauche, que soa bela com vocais femininos.

Ao fim do disco vem a reflexão nada inédita para quem acompanha as impressões sobre o mundo musical brasileiro atual: se a grande mídia avaliza apenas um ou dois gêneros musicais, dando a impressão que vivemos um momento de crise criativa, os subterrâneos pulsam de diversidade, gente com sangue nos olhos e talento. Uma contradição de termos, quase um crime de ocultação de bons nomes para uma multidão de ouvintes em potencial. Apesar disso, essa gente resiste, se reinventa e segue firme. Ainda bem.

(Verso em uma música: Entre O Mangue E O Mar)

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BOM PARA QUEM OUVE: Tulipa Ruiz, Mombojó, Bixiga 70

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.