Resenhas

Tulipa Ruiz – Tudo Tanto

Segundo disco da cantora a estabelece entre os maiores nomes da música essencialmente brasileira feita no país hoje

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Ano: 2012
Selo: Natura Musical
# Faixas: 11
Estilos: MPB, Pop, Indie
Duração: 50:10
Nota: 4.5
Produção: Gustavo Ruiz

É, primeiro single e música de abertura de Tudo Tanto, revela muito do que vamos conferir ao longo do álbum, principalmente o instrumental rico e os versos calcados em uma poesia cotidiana que serve como base para a interpretação doce e forte, sempre cheia de personalidade, de Tulipa Ruiz.

A maturidade do segundo disco lhe deixou à vontade para brincar de aplicar sua voz em diferentes situações, tons e melodias. E “brincadeira” é um termo que se encaixa bem no contexto – dá para sentir seu sorriso em faixas como Script e Ok -, o que não minimiza a seriedade da obra, no sentido de ser um bom trabalho realizado.

Apostando em um som atemporal, Tulipa faz um Pop essencialmente brasileiro sem ser caricato. É o tipo de música que nosso país tão bem produz, algo que não teria sido feito em qualquer outro lugar, reunindo o melhor de nossa tradição lírica e rítimica sem ter que apelar para temas tropicais ou qualquer outro clichê “para gringo ouvir” – como a tendência que parece ter dominado a MPB há uma década, por exemplo.

Não, suas letras são bem construídas para exprimir significado da beleza que nossa versão da língua portuguesa, com todo seu batuque natural. São versos cheios de aliterações, substantivos e poesias, sonoras e semânticas, como “Paro para procurar/Para me preparar/Para nunca parar” (em Quando Eu Achar), “(…) Nunca/Fuja, finja, fale que eu não disse” seguido de “Vamos ser sinceros, come on, baby” (Like This) e “Na expectativa que o inesquecível aconteça/Na confiança de que o imprevisível permaneça” (Expectativa).

O que mais se destaca, entretanto, é a performance visceral de Víbora, ponto alto absoluto de Tudo Tanto. Tulipa hipnotiza com suas flexões vocais milimetricamente calculadas em uma canção de emoções exacerbadas, potencializadas pelos sussurros de Criolo, co-autor da letra, que participa soturnamente com contribuições sutis e efetivas. A ampla dramaticidade da cantora atinge níveis que o Brasil não testemunhava talvez desde Elis, tornando a faixa uma das maiores candidatas a “futuros clássicos” que 2012 produziu.

O disco se encerra quase abrupto com o “Todos querem ver você cantar”, de Cada Voz, convidando o ouvinte ao repeat instantâneo e proposital, visto que seu final casa muito bem com o início de É, incentivando ainda mais o tal loop. As boas participações, como Lulu Santos, Rafael Castro e Dudu Tsuda, não ofuscam de maneira alguma o brilho do timbre tão característico da voz da cantora, que ganha nossa simpatia cada vez mais.

Dentre as impressões que ficam ao ouvir o álbum, se destaca ainda a grande coesão entre as faixas, todas tão reveladoras da própria artista. Tudo Tanto tem tanta personalidade quanto ela, sabendo quando alterar seu humor, mudar de tom, sussurrar e gritar, exalando vida e beleza em cada um desses memoráveis momentos, “das mil coisas por segundo” ao “tanto que falta para ficar ok”. Tulipa, de fato, “pode ser e é”.

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BOM PARA QUEM OUVE: Wado, SILVA, Pélico
MARCADORES: Indie, MPB, Pop

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.