Resenhas

Tyler, The Creator – Call Me If You Get Lost

Com sabor de mixtape e saudando a “Blog Era”, sexto disco do aclamado artista celebra conquistas pessoais dos mais de 10 anos de carreira

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Ano: 2021
Selo: Columbia Records/Sony Music Entertainment
# Faixas: 15
Estilos: Rap
Duração: 53'
Produção: Tyler, The Creator

Tyler, The Creator (já) dispensa apresentações. Flower Boy (2017), seu quarto disco de estúdio, expandiu o público fiel do artista para além dos fãs de Rap Alternativo, enquanto IGOR (2019), seu maior sucesso de público e crítica, o consolidou de vez como, também, figura das mais ilustres dentro da cultura Pop recente – e ainda rendeu o Grammy de Melhor Disco de Rap e seu primeiro topo na parada de discos da Billboard.

Quem chega no barco agora vê um artista refinado e que possui entusiastas cativos de tudo que lança, de roupas a programas de TV e sorvetes, além de música, claro. Mas nem sempre foi assim. Há 10 anos, vivíamos a Blog Era, um brevíssimo, porém relevante, capítulo na história do Rap. No início da década passada, rappers tinham basicamente uma maneira de estourar a própria música: ter uma mixtape bem elogiada por blogs como o 2DopeBoyz, explodindo o número de downloads do trabalho em sites como o DatPiff, para então ganhar um contrato com uma grande gravadora. Era uma terra sem lei em termos de distribuição musical, anterior à popularização dos streamings  e das práticas padrões nos lançamentos de hoje. Até mesmo Kendrick Lamar, que já era assinado com a Aftermath em 2012, teve seu disco good kid m.A.A.d city (2012) vazado pouco antes do lançamento.

Os fãs se interessavam muito pela “narrativa” dos artistas e buscavam um contato mais íntimo, proporcionado em grande parte pelos blogs. Veio o crescimento colossal das redes sociais e o “blogging” se tornou cada vez mais raro e, de certa maneira, obsoleto – mas, à época, qualquer artista buscando ascensão estava nestes sites. Não era o caso de Tyler, The Creator (e seu extinto grupo Odd Future). Os meninos da Califórnia, que criaram uma fan base obcecada através da internet, ironicamente, nunca apareciam no 2DopeBoyz (um dos blogs mais relevantes do período), fazendo com que Tyler mandasse o mais sincero foda-se à mídia na introdução de Bastard (2009/2010), sua primeira mixtape. Com o passar dos anos, a Odd Future se separou, mas dos aclamados discos de Frank Ocean ao jovem prodígio Earl Sweatshirt, passando pelo The Internet, os membros do coletivo amadureceram suas carreiras e trabalhos. Com Tyler, The Creator não foi diferente: uma década depois, o líder da Odd Future faz do seu sexto disco de estúdio (com gostinho de mixtape), uma celebração do sucesso que atingiu, ao passo que faz frequentes saudações à Blog Era.

Em Call Me If You Get Lost (2021), o rapper conta com DJ Drama, um nome tão importante para o período quanto os blogs em si. Durante os cerca de 50 minutos de audição, o lendário DJ decora cada canto do disco com seus gritos e o clássico bordão “Gangsta Grillz”, presente em mixtapes como Dedication 2, de Lil Wayne, ou “In My Mind (Prequel)”, de Pharrell Williams, ambos também presentes no novo trabalho. Lil Wayne provavelmente com seu melhor verso em anos. Inspirado por Westside Gunn (o sample de “Sir Baudelaire” é o mesmo de “Michael Irivn”, do rapper da Griselda), Call Me If You Get Lost é o retorno de Tyler a um som mais orientado para a rima – e participações recentes, como em “Something to Rap About”, de Freddie Gibbs, provam que ele tem habilidade para trocar barra por barra com os melhores rappers da atualidade. “MASSA” segue o padrão clássico do Rap de verso-refrão-verso-refrão sob um instrumental com baterias e piano que remetem muito a Wolf (2013), fase em que ele praticamente só rimava. Domo Genesis, seu antigo companheiro de Odd Future, chega junto na faixa “MANIFESTO”, na qual Tyler responde críticas a seu passado controverso e se declara com transparência sobre pautas raciais. “I feel like anything I say, dawg, I’m screwin’ shit up / So I just tell these black babies, they should do what they want / Freedom, need’em”.

Em Call Me If You Get Lost, Tyler, The Creator pega emprestado o sobrenome do poeta Charles Baudelaire para nos apresentar a persona que conduz o disco. Tyler Baudelaire é, assim como o francês, um bon-vivant em sua expressão máxima: lhe interessa um estilo de vida quase boêmio e, ao mesmo tempo, é elegante como um dândi. Tyler, The Creator exibe com orgulho suas conquistas, seus carros e, de maneira mais intensa, suas viagens pelo mundo – fio condutor da audição. Do convite à menina que ele gosta para ir a Cannes assistir filmes indie até passeios de barco intercalados por sessões de estúdio na Itália, o negócio do Tyler aqui é viver da melhor forma. No entanto, no exagero dessa extravagância Tyler chega a sugerir o preenchimento de emoções por meio de bens materiais. “’Bout to spend millions just to fill voids up / Drama, I need you (Yessir), can you turn the noise up? / Turn the fuckin’ noise up, ah, nigga, my heart broken / Remember I was rich so I bought me some new emotions / And a new boat ‘cause I rather cry in the ocean”, ele rima em “CORSO”. Se eu tivesse esse dinheiro, também estaria preenchendo lacunas  com viagens caras ao invés de videogames, então não o julgo. A falta de aprofundamento nessa questão só não é um demérito mais significativo pois Tyler, The Creator sabe amarrar muito bem as propostas de seus discos pós-Cherry Bomb (2015). Ao mesmo tempo, ainda que ele possa soar hedonista ou excessivamente materialista, suas aflições são mundanas e, por trás dos exageros, existe uma angústia banal, cotidiana e relacionável. O que, intencionalmente ou não, também remete à ideia de flâneur, de Baudelaire: um amante da multidão, que percorre as ruas, se reconhece nela e fora de casa também se sente em casa. Mais um, como tantos e tantas. Talvez CMIYGL incremente ainda mais essa contradição tão magnética de Tyler – inatingível e alucinado e, ainda assim, humano e simples.

Musicalmente, o novo disco de Tyler, The Creator faz menção a diversos outros pontos de sua carreira. Há o barítono do alter-ego Wolf Haley, baterias marcantes de canções como “Awkward” ou “IFHY”, além da combinação peculiar de harmonias belas e encorpadas com um Soul Lo-Fi de “2SEATER” ou “FUCKING YOUNG / PERFECT”, de Cherry Bomb. O rapper ainda busca inspiração na musicalidade do Rap e R&B dos anos 1990 em “LUMBERJACK”, praticamente um remix de “2 Cupz of Blood”, do Gravediggaz, e na romântica “WUSYANAME”, com produção simples que acelera a batida de “Back Seat (Wit No Sheets)” do H Town. E se é para falar de amor, fale (com o Marcinho, ou) com Tyler, The Creator. “WILSHIRE”, canção de oito minutos confessionais e nada cansativos, é o momento mais narrativo do disco. Antes dela, a épica “SWEET / I THOUGHT YOU WANTED TO DANCE” passa por um charmoso baixo suingado e sintetizadores já conhecidos da obra do artista para desembocar em um ousado Dub Reggae à la Lovers Rock. Preciso dizer que “Faixas 10 dos discos do Tyler” têm se tornado um dos meus gêneros musicais favoritos. Olhos marejados ao cantar junto o tocante “I wish that we had better timing / I’ll save a dance just for you”. Essa ia casar perfeito para dançar de rostinho (e outras partes coladas) em um barco no Maranhão.

Tyler, The Creator levou tempo para refinar e refinar seu ofício, e Call Me If You Get Lost vem forte para competir com IGOR como o melhor álbum de sua carreira. (Até o fechamento dessa resenha, o trabalho acumula nota 89 no Metacritic e obteve a melhor semana de vendas da carreira de Tyler – barrando Doja Cat e conquistando o topo da Billboard mais uma vez). O sexto disco do ex-líder da Odd Future é potencialmente seu projeto mais pessoal, mas vem no momento em que o artista é muito bem-sucedido em (quase) todos os pontos da vida, como descreve no skit “BLESSED”. Com exceção da confusão amorosa e dos problemas com “talaricagem”, o disco não tem tantos frios na barriga assim: niggas is blessed. Call Me If You Get Lost é uma grande celebração de Tyler, The Creator e suas conquistas, seja desembolsar 1 milhão de dólares para ter Drake em o seu próprio festival ou comprar um carro simplesmente porque deu vontade. A roda gigante da vida de Tyler está agora parada lá no alto e ele aproveita o momento para contemplar a vista – ainda que sinta falta de ter os dedos entrelaçados com outras mãos.

(Call Me If You Get Lost em uma faixa:SWEET / I THOUGHT YOU WANTED TO DANCE)

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