Resenhas

Tyler, The Creator – CHROMAKOPIA

Em seu oitavo disco de estúdio, Tyler tenta tirar a(s) máscara(s) em prol de uma jornada corajosa e intensa de autodescoberta

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Ano: 2024
Selo: Columbia
# Faixas: 14
Estilos: Rap, R&B
Duração: 53'
Produção: Tyler, The Creator

Quando certa manhã Tyler, The Creator acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em alguém com mais de 30 anos de idade. É verdade que na época do lançamento de Call Me If You Get Lost (2021), o rapper – e produtor, compositor, estilista, ícone fashion, humorista… – já havia entrado na terceira década de vida, mas apenas meses antes. Em CHROMAKOPIA, disco lançado na última semana, Tyler encara uma espécie de “crise dos 30” – ou especificamente “dos mais de 30” –, em canções que revelam dúvidas, paranoias e uma hesitação entre passar a limpo o passado e abraçar o futuro. São letras que exalam uma energia pós-jovem (fase abordada no podcast do André Felipe de Medeiros), quando a euforia-utopia juvenil passa e surgem, além da ressaca existencial, novas esfinges da maturidade a serem decifradas.

Desde que, como parte do Odd Future, apareceu para o mundo no fim dos anos 2000, Tyler passou por metamorfoses. Seja na fase intencionalmente cartunesca e edgy de Bastard e Goblin, nas dores de um coração partido em IGOR, ou no momento bon vivant de Call Me If You Get Lost, seus projetos costumam apresentar um universo amarrado, cuja força se sobressai mais a partir do todo – do repertório ao aspecto visual – do que pelas faixas separadamente. Palavrinhas gastas, mas aqui cabe, então, vamos lá: são álbuns conceituais. Ao longo de mais de 15 anos de carreira, Tyler não apenas demonstrou uma rara habilidade de encarnar diferentes personas, como evidenciou um imenso incremento artístico, evoluindo e muito sua paisagem estética, das rimas às produções, passando pelo audiovisual. Agora, em seu oitavo álbum de estúdio, existe, sim, um conceito, mas mais do que um mood ou uma “narrativa” permeando toda a obra, CHROMAKOPIA é uma montanha-russa de sons e emoções.

A influência exercida sobre os fãs, o desequilíbrio de afetos na balança em uma relação amorosa (e monogamia x não-monogamia), orgulho negro, alienação parental, gravidez não planejada – são muitos os temas percorridos por mais de 50 minutos de música, nos quais Tyler está em uma procura frenética por si mesmo. Tirar a(s) máscara(s) e (no melhor estilo nietzschiano, “torna-te quem tu és”) descobrir e apresentar o que há, verdadeiramente, por baixo dela(s). Como guia e conselheira durante esse percurso nada retilíneo e de recompensas incertas, está Bonita Smith, mãe do rapper. “You are the light, It’s not on you, it’s in you. Don’t you ever in your motherfucking life dim your light for nobody”, ela alerta na primeira frase da abertura, “St Chroma”, parceria com Daniel Caesar e ótimo cartão de visita. Aliando minimalismo e ares épicos, entre sussurros e ganchos apoteóticos, a faixa remete ao astral de My Beautiful Dark Twisted Fantasy, de Kanye West. “I just need this time to myself to figure me out-out / Do I keep the light on or do I gracefully bow out?”, questiona Tyler, ao final, mostrando que só o amor de mãe nem sempre é o bastante para sanar todas as incertezas.

A própria ordem de como o repertório se desenrola parece refletir um caos e um vai e vem de humores – costurados a partir de canções que terminam uma no início da outra. Se a abertura é emocional e quase esotérica, na sequência vêm a pedrada “Rah Tah Tah”, com seus braggadocios e synths hipnóticos, e “Noid”, baseada em um sample de guitarra da Ngozi Family, banda da Zâmbia formada na década de 1970. A segunda, primeiro single divulgado do disco, escancara a paranoia de Tyler – invasões domiciliares, vizinhos e carros suspeitos, uma arma guardada embaixo da cama, contadores trapaceiros, fãs inconvenientes… Desconfianças e inseguranças de toda sorte são despejadas de maneira franca e errática. Mudando de tópico e aliviando a tensão, Bonita reaparece com a dica: “Whatever you do, don’t ever tell no bitch you love her. If you don’t mean it, don’t tell us”, que abre os trabalhos da dançante e solar “Darling, I”, parceria com Teezo Touchdown. Enquanto Tyler fala sobre se apaixonar seguidamente por pessoas diferentes e de como o “para sempre” dura tempo demais, o instrumental vem embalado por uma atmosfera R&B noventista, com guitarras crocantes e coros açucarados. A temática recebe um novo capítulo com “Hey Jane”, em que o rapper mostra seu talento como storyteller por meio de um diálogo com uma mulher que está grávida dele – o primeiro verso é de Tyler; o segundo, uma resposta de Jane. Independentemente dos versos serem ou não inspirados em histórias reais, é curioso, terno e acalentador como, na troca de perspectivas executada por Tyler, o casal se entende e há uma compreensão mútua frente a aflições e temores de cada indivíduo. É como se Tyler roteirizasse uma conversa ideal – sensível, carinhosa, empática – para uma situação de gravidez não planejada. Já os bangers do repertório se destacam na maluquice orquestrada “Sticky”, com percussão neptuneana e versos afiados de GloRilla, Sexyy Red e Lil Wayne, e em “Thought I Was Dead”, com ScHoolboy Q e Santigold

“I Killed You” é uma reflexão potente sobre a beleza e a herança presente em cabelos naturais de pessoas negras, que, por uma coação social e racista, sofrem pressão para alisarem seus fios. Citando-se como exemplo dessa repressão e imposição de padrões, Tyler aborda a “morte” do cabelo – com química, cortes e penteados (“I gotta work, I gotta eat / If they see you on top of me (away), I gotta leave / Bitch, I killed you, your natural state is threatenin’ / To the point that I point at myself (away) for self-esteem”). Mais uma das demonstrações de como há, em CHROMAKOPIA, uma busca urgente por identidade – uma que ultrapasse ditames da sociedade, da cultura, da família, do show biz e, fundamentalmente, do próprio Tyler, o artista, dono de uma mitologia própria, erguida ao longo de quase duas décadas. Em “Tomorrow”, inclusive, ele canta sobre versões de si mesmo que são apenas memórias. Tônica semelhante aparece na reluzente “Take Your Mask Off”, em que Daniel Caesar e LaToiya Williams contribuem para um delicioso rap com aura de R&B (e de refrão irresistível). Entre as grandes canções do disco, ela realiza uma discussão crítica sobre as máscaras da vida e da indústria, mas também percorre um caminho autoconsciente, em uma espécie de self-diss na etapa final da faixa. Tyler, mais uma vez, joga a mira para ele e chega, aos 33 anos, a já pensar em seu legado quando deixar esse plano: “Your respect won’t get given till we postin’ your death / It’s clear you wish you got your flowers sent”.

Como se o divã de CHROMAKOPIA já não estivesse complexo o bastante, há espaço para a tocante “Like Him”, com Lola Young, em que Tyler – sob instrumental esparso, cuidadoso, quase uma valsa soul – confronta os fantasmas pela ausência do pai (e repercute as semelhanças com ele, apontadas pela mãe). Para embaralhar ainda mais as cartas, a mãe, ao final, revela que o pai de Tyler é, na verdade, um cara legal, sempre quis estar presente e a culpa pela distância é dela. Não por acaso, a intensa e corajosa jornada de CHROMAKOPIA termina com “I Hope You Find Your Way Home” – e a sensação é de que esse lar é bem mais metafórico, espiritual e emocional do que literal e físico.

Nas produções, CHROMAKOPIA não dobra as apostas ou repagina de forma vigorosa o que Tyler já vinha fazendo – e muito bem – durante sua carreira e, especialmente, após Flower Boy (2017). Os instrumentais, inclusive, soam como uma equilibrada mistura de timbres e harmonias de seus dois últimos álbuns. Já nos versos, dá para dizer que Tyler talvez nunca tenha se exposto de maneira tão aberta, vulnerável e determinada. Tratando-se de um artista acostumado a investir em personagens e alter egos – de Dr. TC e Igor a Sir Baudelaire –, é empolgante e instigante passar quase uma hora com Tyler tentando tirar as máscaras e os véus de alguém cuja metade da vida se deu sob o calor dos holofotes. Durante a saga, ele rastreia as pegadas que o levaram até o presente, mas avista o horizonte. E, no meio do caminho, CHROMAKOPIA transparece a angústia e a beleza que há nessa busca infindável, avessa à conclusão, por alguma essência do que se é.

(CHROMAKOPIA em uma faixa: “Take Your Mask Off”)

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