Resenhas

Underworld – Barbara, Barbara, We Face A Shining Future

Duo inglês retorna com álbum sensacional e sentimental

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Ano: 2016
Selo: Astralwerks
# Faixas: 7
Estilos: Eletrônica, Rock Alternativo, House
Duração: 45:14
Nota: 4.5
Produção: Rick Smith, Hgh Contrast

Antes de mais nada, gente, deixem-me me dizer com clareza: Barbara, Barbara, We Face a Shining Future é um grande, generoso e sentimental álbum de música Eletrônica. Ele é tão sensacional que coloca em xeque o padrão de música sintética feito hoje para as massas, a tal da EDM, que faz as pessoas pularem em multidões diante de sujeitos marotos, matreiros e velhacos, que ficam se valendo de coreografias micarêticas e pendrives ocultos para “remixar” canções de outrem “ao vivo”. Sim, sabemos que são público e artista que não devem receber muita consideração, mas álbuns como este de Underworld servem para mostrar o quanto é possível fazer música sublime num terreno aparentemente similar. Dá até vergonha dessa gente.

Deixemos eles de lado. O negócio aqui, como dissemos, é de alto nível sentimental e musical. Underworld, você sabe, é Karl Hyde e Rick Smith e este é o primeiro disco que a dupla lança desde 2010. Neste meio tempo estiveram envolvidos com projetos paralelos, trilhas sonoras e, vejam só, a sonorização da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2012. Há algum tempo, os dois se entocaiaram no estúdio para compor e gravar as canções do álbum, com a participação do pessoal de High Contrast na produção. O resultado, simplesmente, é o melhor trabalho desde 1999, ano de lançamento do belíssimo Beaucoup Fish, que, ainda assim, era um álbum bem diferente deste. Enquanto Fish era uma atmosférica incursão na pista de dança do fim do milênio passado, este feixe de oito canções de 2016 soa como um companheiro confessional de viagem pela cidade.

A maravilha já começa pelo título, simplesmente, as últimas palavras proferidas pelo pai de Rick Smith antes de morrer. Ele as dirigiu para a esposa, Barbara, que se lamentava diante do inevitável e temia o mundo sem a presença do marido. Ele a consolou com estas palavras e morreu pouco depois. Não bastasse a beleza da história, as oito composições do álbum são belas, cada uma à sua maneira, oscilando entre algumas faixas mais ou menos dançantes e outras – as melhores – que se mostram tristonhas, contemplativas, correspondentes atuais para produções que poderiam ser de Depeche Mode, New Order e Pet Shop Boys na virada de de 1989/90, quando estavam maduros e vivendo grandes momentos, justamente na aplicação da música sintética com potencial Pop, mas voltada mais para a introspecção.

Não se deixe enganar pela referência. O álbum é totalmente 2016, justamente nesta busca por referências, exercício comum a todo artista Pop, mas que adquiriu contornos estranhos nos últimos tempos. Basicamente o disco consiste em duas grandes suites, cortadas por uma faixa chamada Santiago Cuatro, sombria e celestial ao mesmo tempo, com floreios de violão e guitarra dedilhados e borrados por água numa aquarela sonora. A primeira canção do álbum, I Exale, não mostra tudo, chegando a enganar o ouvinte menos atento, com uma batida quase humana, cheia de teclados Technopop do início dos anos 1980, no sentido Ultravox/Gary Numan do termo, com vocais interessantes de Karl Hyde, mostrando que Underworld tem sua faceta Pós-Punk eletrônica bem cultivada. Todo este clima cai por terra com a chegada de If Rah, que conecta os eletrodos Hip Hop/House na coisa toda, levando o ouvinte e a dupla para os anos dourados da carreira, lá por 1994/95, mas com apelo dançante bem atual. Mistério e climões introduzem Low Burn, que tem boa exploração Ambient, mas que logo deságua num andamento acelerado característico da dupla, tudo muito bem feito e cheio de detalhes, com direito a vozes sussurradas e clímax lento/instrumental no fim.

Após a faixa-interlúdio, voltamos para a segunda parte do álbum. Motorhome é a primeira das três composições restantes, chegando com batida lenta e riff melódico soturno e forte. Em seguida chega o climão de Ova Nova, moderninha, dançante, com sintetizadores cobrindo de disfarce as vozes mixadas e trabalhadas de Hyde. O ápice do álbum chega no fim, com a magistral Nylon Strung, uma melodia agridoce, triste/alegre, clara/escura e cheia de todos os contrastes possíveis, assemelhando-se à imagem de alguém triste em plena pista de dança ou, quem sabe, com felicidade incontida enquanto visita alguém no hospital. As vozes novamente estão presentes o tempo todo, totalmente espalhadas pela canção, com um arranjo que é, ao mesmo tempo, 2016 e 1990, com teclados melodiosos, introspecção e um luxuoso revestimento. Melhor performance vocal de todo o álbum.

Barbara, Barbara We Face A Shining Future é um belíssimo retorno de Underworld, que mostra as características marcantes do duo, sua capacidade de adaptação e de usar uma forma aparentemente fria de música para transbordar de sentimentos e beleza. Um dos álbuns do ano.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.