Resenhas

Vampire Weekend – Father of the Bride

Banda resgata valores da cultura estadunidense com referências nostálgicas e estética contemporânea

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Ano: 2019
Selo: Sony Music
# Faixas: 18
Estilos: Indie, Pop
Duração: 58'
Nota: 5
Produção: Ariel Rechtshaid, Ezra Koenig, Dave Macklovitch, Rostam Batmanglij, BloodPop, DJ Dahi, Steve Lacy e Buddy Ross

Talvez um efeito das ondas nacionalistas de extrema direita que tomam conta do globo hoje em dia seja uma investigação afetiva que os artistas realizam com suas culturas locais. Ou seja, enquanto o ufanismo é urrado por alguns, mentes criativas mais ponderadas buscam encontrar o que seus países possuem de melhor sem cair em discursos de ódio – quiçá para não parecerem ir de encontro à sua nação no ato de se posicionar contra um patriotismo fundado na intolerância.

Father of the Bride chega como exemplo dessa breve teoria. Em seu quarto álbum, Vampire Weekend explora algumas das facetas estéticas estadunidenses que garantiram a hegemonia cultural da nação também no campo da música Pop. É um disco que apura raízes e desdobramentos de um som chamado – repare bem – de Americana e expressa essas indagações e descobertas dentro do território criativo do Indie no qual a banda do Brooklyn ficou conhecida.

Vale destacar aí também uma nova geografia na história do grupo. Se Modern Vampires of the City já havia sido gravado em parte na Califórnia, a transição para o outro lado do país fica completa neste lançamento, todo produzido em Los Angeles. Esse movimento está em par com o deslocamento do pólo mais inovador, ou efervescente, na música norte-americana, que costumava estar em Nova York e agora se encontra nas terras ensolaradas onde o deserto encontra o Pacífico.

Isso talvez reforce o argumento de anseio por aquilo que é mais próprio na música dos EUA, visto que Hollywood é sinônimo de todas as coisas dentro do entretenimento de massa, incluindo a indústria fonográfica. Essa nostalgia encontra ares recentes em timbres e tratamentos sonoros, dos cortes abruptos na faixa de abertura, Hold You Now, às batidas de We Belong Together. Nas duas, o dueto com Danielle Haim (também presente na faixa Married in a Gold Rush) ajuda a evocar uma tradição que você pode nem saber nomear, mas reconhece instantaneamente como familiar.

Músicas como a dobradinha Sunflower e Flower Moon (ambas com Steve Lacy), 2021, Bambina e Rich Man talvez sejam as em que mais reconheceremos o DNA Vampire Weekend – na guitarra Indie, no andamento inquieto e na percussividade marcante -, embora todas estejam bem situadas nesse território próximo ao Country e ao R&B de antigamente. Há diversas elipses ao longo do álbum, seja nos cortes já mencionados da primeira música, ou em uma métrica que não se resolve em vários momentos, talvez tendo isso como mais um recurso que nos lembre que a obra é mais um estudo das heranças do que puro saudosismo.

Se engana quem curte a banda por músicas como Cousins, Holiday e Diane Young e, ao ler este texto, pensa que o novo álbum é apenas uma dissertação sobre a música estadunidense. Sua melhor característica, pelo contrário, é saber como dosar todas essas ideias sem que pareça que Father of the Bride seja um “disco conceitual”, resultando em uma obra sempre muito prazerosa na audição, com refrões que você canta junto, harmonias muito bem trabalhadas e letras tão sensíveis quanto divertidas – “Baby, I know pain is as natural as the rain, I just thought it never rained in California”, na deliciosa This Life, talvez seja o maior exemplo disso.

É uma coleção de canções que evoca também aquela certa sensação de ingenuidade que percebemos ao olharmos para o passado, para quando as referências dessas músicas foram gravadas. Mais do que uma posição menos inflamada politicamente em meio aos movimentos nacionalistas, Vampire Weekend oferece um contato com suas raízes culturais de maneira calorosa – um verdadeiro alívio em forma de grande disco.

(Father of the Bride em uma música: This Life)

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MARCADORES: Indie, Pop

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.