Resenhas

Vespas Mandarinas – Daqui Pro Futuro

Segundo disco da banda arrisca sonoridades Pop e comete deslizes

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Ano: 2017
Selo: Deck Music
# Faixas: 14
Estilos: Indie Pop, Rock Pop
Duração: 44:00
Nota: 2.5
Produção: Michel Kuaker, Rafael Ramos e Thadeu Meneghini

Se o grupo Vespas Mandarinas tem um trunfo é o de trazer um sentimento da juventude pleno em sua obra. Com um disco de estreia indicado ao Grammy Latino, o duo composto por Chuck Hipolitho e Thadeu Meneghini ganhou fama com sua sonoridade efervescente que captava influências claras dos anos 1980/90, entre refrões à la Titãs e Ira!. As letras, que alternavam entre política e humor, moldaram uma personalidade forte fazendo qualquer roqueiro xiita pensar duas vezes antes de falar que “o rock morreu”. Três anos se passaram desde o lançamento de Animal Nacional e os garotos agora arriscam levar sua jovialidade e energia para novos mares. Tudo isto parece ter revelado que, no fim das contas, aquela disposição elétrica se revelou aos poucos ser uma grande metáfora da história de Peter Pan.

Daqui Pro Futuro é, inquestionavelmente, desbravador. A transição em apenas um disco de um Rock ácido e potente para um Pop simplista e divertido é um fato que poucas bandas têm coragem de se submeter. A excelente produção acompanha composições de estruturas bastante rígidas, dando margem a músicas que chegam quase a ser sátiras do Pop dos anos 80. Há parcerias incríveis no disco, como os vocais de Samuel Rosa na faixa de abertura Daqui Pro Futuro e de Edgard Scandurra, em Só Se Vive Uma Vez. O álbum conta também com músicas de belos e trabalhados arranjos, como Cada Um Sabe de Si e Fica Comigo. Entretanto, este aspecto de crítica não se mostra tão claro ao desenrolar da obra, o que nos faz a encarar como uma frustrada tentativa do grupo ser algo que claramente não é: jovem.

O disco oscila entre uma espécie de Indie Pop genérico e um Rock suave dotado de letras melosas e simples. A produção é boa, mas não é capaz de salvar os momentos extremamente enjoativos do disco como a infantil Lambe-Lambe e a mesmice de Fingir Que Não Dói. A grande razão do disco não alçar voos mais altos fica por conta indecisão (ou até mesmo a incerteza) sobre o que o álbum é: um registro Pop crítico ou apenas um trabalho sem personalidade? Resposta esta que mesmo a banda não parece ter. Letras desconexas, ausência de um conceito claro e composições por vezes simples demais são alguns dos problemas que atravessam o disco, revelando das duas uma: ou o grupo mudou ou nós crescemos e deixamos para trás aquela energia do primeiro disco.

Daqui Pro Futuro é um trabalho bastante confuso que traça caminhos incertos para Vespas Mandarinas. Com muitas dúvidas e poucas certezas, é possível encarar o disco como uma espécie de ensaio, onde a banda arrisca novas formas de experimentar e compor – o que, de qualquer forma, é extremamente válido. Ficamos no aguardo para saber se isto foi apenas um deslize ou o início de uma trágica tendência.

(Daqui Pro Futuro em uma faixa: E Não Sobrou Ninguém)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.