Resenhas

Viagra Boys – Cave World

Entoando discurso ácido e político, banda sueca viaja com destreza pelas intersecções do punk em terceiro disco

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Ano: 2022
Selo: Year0001
# Faixas: 12
Estilos: Dance Punk, New Rave e Post-Punk
Duração: 40'
Produção: Pelle Gunnerfeldt e D. J. Haydn

Quando o nome da banda sueca Viagra Boys é lido, um estranhamento brota em nós de imediato. Seja pela presença do nome do famoso remédio ou até pela associação com a palavra “boys”, este sentimento de surpresa e curiosidade também surge ao entrarmos no universo sonoro do grupo. Desde 2015, a banda transita pela área cinzenta que intersecciona o post-Punk e dance punk, com guitarras estridentes, bateria distorcida e vocais que vão de berros até frases esquisitonas. Todos estes elementos contribuem para esta impressão estranhona, mas há uma particularidade que sempre destacou Viagra Boys entre as bandas que apostam nesta sonoridade revival dos anos 1990: a crítica ácida.

Que o punk é um movimento que surge extremamente politizado e crítico não é necessariamente uma novidade. Entretanto, o teor ácido aqui se sobressai e ganha um sabor a mais. Não se trata de um discurso puramente agressivo e bombástico, mas de uma crítica rica, cuidadosa e repleta de metáforas potentes – como um análogo pós-punk de R.A.P. Ferreira (Milo, Scallops Hotel). Uma hipótese para o estranhamento é justamente a união de agressividade e estratégia – e, sobretudo, ironia.

Com olhar atento (e cru) à realidade, o grupo agora se volta a um período específico da história contemporânea: o pré, durante e pós COVID-19. O resultado é um disco que parece comportar tanta coisa que aqueles pilares rígidos da cena punk/post-punk começam a se desestabilizar. A essência roqueira recebe um tempero bastante experimental em Cave World, terceiro e mais recente disco da banda. Seu título carrega a comparação entre o mundo contemporâneo e a pré-história, relação que se perpetua pelo disco em diferentes momentos. Em especial, uma ideia de que nós não seríamos exatamente a espécie super evoluída que julgamos ser – e, para isso, a banda recorre aos acontecimentos envolvendo a pandemia, do negacionismo aos reflexos políticos. A crítica permanece firme no punk, mas não deixa de fora o humor para evidenciar a realidade, além de um toque de loucura e insanidade.

Viagra Boys vai sempre direto ao ponto e nada melhor do que uma música como “Baby Criminal” para abrir o registro em uma velocidade de arranque, com a bateria no talo e guitarras que flertam com a psychobilly dos anos 1970. A autorreferência ao gênero punk surge em “Punk Rock Loser”, um retrato arrastado, embebido de distorções de stoner rock e com uma descrição fidedigna do típico roqueiro que parou no tempo – curioso como nem a própria banda está imune a sua própria crítica. Apesar de “Globe Earth” ser um interlúdio, é interessante como ele se utiliza do negacionismo científico para compor uma faixa bastante psicodélica. Logo em seguida, o single “Ain’t No Thief” já chega arrebentando tudo com um tipo de punk mais eletrônico, mostrando que é possível aproximar os dois gêneros sem forçar a barra. A última faixa do disco, “Return To Monke”, amarra o trabalho energicamente, sem dar descanso aos ouvintes. Como se mostrasse que a realidade não dá sossego.

Cave World impressiona pela crueza com que expõe a realidade, mas também por sua capacidade de envolver o ouvinte com ironia e acidez. É um disco que, a seu modo, nos faz pensar. E no som, Viagra Boys remaneja as possibilidades do (e de ser) punk e acerta – ousando com destreza, rejeitando purismos e saindo da caverna sem medo.

(Cave World em uma faixa: “Punk Rock Loser”)

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ARTISTA: Viagra Boys

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.