Resenhas

Viagra Boys – Welfare Jazz

Banda sueca retorna com disco deliciosamente estranho e, não apenas por isso, memorável

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Ano: 2021
Selo: YEAR0001
# Faixas: 13
Estilos: Pós-Punk, Indie Rorck
Duração: 40'
Produção: Daniel Fagerström, DJ HAYDN, Fabian Berglund, Henrik “Benke” Höckert, Martin Vogel, Matt Sweeney, Patrik Berger, Pelle Gunnerfeldt e Raisen Brothers

Deliciosamente estranho, Welfare Jazz é um deleite irreverente para os ouvidos, lançado em uma época em que originalidade e conteúdo crítico nem sempre caminham juntos. Viagra Boys, banda sueca que explicita seu humor ácido já no nome, canta a respeito de um novo olhar sobre a masculinidade e a vida hoje em dia embaixo dessa, digamos, sentença. Com grande cara de obra descompromissada, já é certamente um dos discos mais surpreendentes da temporada.

O Pós-Punk nervoso que abre o álbum em “Ain’t Nice” se mostra como uma brincadeira com esse referencial masculino, ilustrado por timbres pesados no baixo e na guitarra, a bateria pulsante e o descontentamento cantado na letra. É uma combinação que nosso imaginário logo identifica como pertencente a um universo de homens (brancos, vale dizer) que se sentiam oprimidos por um sistema no qual, teoricamente, eles deveriam estar no topo. Isso faz com que esse indivíduo não confie em ninguém, nem mesmo em seu cachorro (“This Old Dog”) e sinta que precisa ser autossuficiente (“Toad”). Ele se vê como um cowboy (“Into the Sun”) que está sozinho em um mundo que se dedica a derrubá-lo (“Girls & Boys”). Vítima dessa cultura – e do sistema –, o eu-lírico agora luta contra a dependência e tem a seu favor apenas a recente sobriedade (“I Feel Alive”).

É uma narrativa que pode parecer que não combina com o já citado bom humor do Viagra Boys, mas as pequenas vinhetas que vão do nada ao lugar nenhum, um senso de desordem harmônica que paira sobre todas as músicas e até mesmo várias das escolhas de timbres tornam a experiência do disco um tanto leve. Melhor ainda, elas fazem com que a obra seja sempre bastante divertida, com músicas que fluem com uma dinâmica boa dentro da duração certa para um repeat imediato. Se esse clima impera por todo o álbum, ele ganha ainda mais força nas duas últimas faixas: “To the Country” traz o eu-lírico sonhando com uma vida romântica e idealizada no interior (“And out on the country, we’d be real nice to each other / I wouldn’t scream and yell and ramble ‘bout my problems”) sobre uma cama de instrumentos desarranjados. Depois, “In Spite of Ourselves” brinca com a sonoridade Country norte-americana e força o sotaque para concluir o disco em um dueto de gosto duvidoso em forma e em conteúdo.

Lembra outros contemporâneos europeus, como IDLES e Sleaford Mods, só que mais sagaz que o primeiro e bem mais divertido que o segundo. Welfare Jazz consegue esbanjar criatividade ao colocar elementos que conhecemos bem de tantas outras bandas do reino Pós-Punk, com grande originalidade nos arranjos e nas letras. Portanto, ao contrário de tantas obras jogadas nas enxurradas semanais de lançamentos no streaming, é um disco que consegue o cobiçado feito de ser memorável, e o faz sendo plenamente esquisito – na gama de significados que esse adjetivo pode ter.

(Welfare Jazz em uma faixa: “6 Shooter”)

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ARTISTA: Viagra Boys

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.