Resenhas

Villagers – Darling Arithmetic

Em um álbum que trata sobre sexualidade, Conor O’Brien redescobre a si mesmo

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Ano: 2015
Selo: Domino Recording Co
# Faixas: 9
Estilos: Folk, Singer-Songwriter
Duração: 36:10
Nota: 4.0
Produção: Conor O'Brien

Se álbuns temáticos baseados em finais de relacionamento (os break up albuns) costumam render excelentes obras, na medida em que a crise provocada por essa etapa emocionalmente desafiadora na vida de alguns músicos os reconecta com seus sentimentos e, assim, consequentemente, com sua força criativa, Villagers, em seu novo álbum Darling Arithmetic mostra que não é só a energia destrutiva que contém tamanho potencial artístico.

Seria justo chamar Darling Arithmetic de um álbum de “descoberta da sexualidade” se isso não fosse resumir demasiadamente o teor deste trabalho. O tema central é, sem dúvida, a homossexualidade de Conor O’Brien, mas, muito além disso, o álbum contém a essência de um período de redescoberta pessoal e de contato com a própria intimidade.

A primeira prova disso é o afastamento de O’Brien dos outros membros de sua banda. Darling Arithmetic foi composto e executado inteiramente pelo músico, num processo solipsista que dificilmente podemos associar como egóico, senão como um respeito justo à sua privacidade.

E isso se reflete em três etapas: na primeira, no teor de suas letras, que falam sobre sua sexualidade, sobre seu reencontro consigo mesmo (temos, por exemplo “I’ve been away for so long” em Dawning on Me ou “It took a little time to get where I wanted, It took a little time to get free, It took a little time to be honest, It took a little time to be me” na emblemática Courage); na segunda, na instrumentação, composta essencialmente de violão e voz, com poucos recursos coadjuvantes, o que torna Darling… automaticamente mais intimista; finalmente, na terceira, soma das duas anteriores, na qual se constrói uma aura sensível que observa delicamente a intimidade do artista com um aspecto levemente erótico.

Darling Arithmetic é um álbum que avança retrocedendo, e se aproveita do movimento dessa maré para construir seu ritmo (sintoma que podemos notar nas constantes inversões dos versos, como “I’ll fight to care if you’d care to fight” ou “We got good at pretending and then pretending got us good” em Hot Scary Summer). Avança em sinceridade, sensibilidade, ambição e maturidade artística, ao mesmo tempo em que dá um passo atrás no seu tema (menos grandioso e genérico do que nos álbuns anteriores da banda), nos arranjos e na produção feitos por um homem sozinho tratando de questões íntimas e primordiais. Em sua aritmética amorosa mede, analisa, calcula e estuda as propriedades elementares de sua relação com o amante, mas, acima de tudo, vê nisso uma metáfora para atestar sua relação consigo mesmo.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte