Resenhas

Villagers – Fever Dreams

Novo disco de grupo irlandês aumenta ambição e alça voos mais altos, sem perder de vista, entretanto, a essência sincera do Folk

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Ano: 2021
Selo: Domino Recordings
# Faixas: 10
Estilos: Folk, Psicodelia
Duração: 51'

Em linhas gerais, o gênero Folk é comumente associado ao âmbito privado e intimista. Talvez por poder ser produzido simplesmente com voz e violão, ou por ser associado ao interior norte-americano das pequenas cidades onde todos se conhecem. A questão é que o Folk é muito próximo do imaginário e das experiências de seus compositores. Não que outros gêneros não tenham também esta relação, mas particularmente neste gênero parece haver uma ligação forte entre memórias e música. Assim, muitas vezes as canções imprimem um tom de sinceridade que aproxima o ouvinte do compositor. Como uma conversa entre amigos, que notam similaridades e diferenças. Mas essa dinâmica mais contida diz respeito a apenas uma parcela dos artistas que produzem Folk, havendo, dentro do gênero, propostas em que o experimentalismo e a audácia criativa têm muito espaço para se alojar. São justamente nesses espaços que o grupo irlandês Villagers, liderado por Conor O’Brien, encontra brecha para criar um Folk que viaja além do cotidiano e da intimidade.

Com mais de dez anos de carreira, a discografia do grupo sempre foi pautada nas referências Folk mais convencionais. O violão de aço rápido e ligeiro nunca abandonou O’Brien em todos os seis discos lançados pelo grupo. Além disso, as melodias fáceis (quase universais) sempre foram um talento peculiar do grupo. Porém, apenas esses elementos mais característicos do Folk nunca pareceram suficientes para que o grupo pudesse contar suas histórias aos ouvintes. Os recursos narrativos a mais foram sendo construídos aos poucos, mas desde a estreia em Becoming a Jackal (2010), já era possível sentir algo que ia além de uma estrutura intimista. Villagers é, por assim dizer, uma banda que procura se expandir e é possível perceber isso na sensação grandiosa que seus registros nos trazem. Agora, em seu sexto disco, o grupo leva essa expansão às últimas consequências e o resultado é um trabalho que nos transborda do início ao fim.

Fever Dreams é o maior trabalho de Villagers até então – não em termos cronológicos, mas pela sensação de que a célula Folk parece nos tomar por inteiro assim que as primeiras canções são reproduzidas. Para auxiliá-la neste processo, a banda explora a fusão do Folk a uma psicodelia intensa, daquelas que quando nos damos conta já estamos totalmente imersos. Aqui, o grupo irlandês segue firmemente uma premissa de “quanto mais, melhor”. Arranjos vigorosos compostos de instrumentos de cordas e sopro, sintetizadores voláteis e coros espaçosos dão a este disco um aspecto de tirar o fôlego. Entretanto, o grupo não tira todo nosso ar – pois quer que a gente se mantenha firme para poder aproveitar o que é, inegavelmente, a base dessas composições mirabolantes: o Folk. O objetivo não é se perder, mas ampliar aquela sensação de conversa sincera que o gênero traz. As histórias de Villagers estão todas aí, espalhadas pelas 10 faixas, porém impulsionadas por elementos fantásticos e grandiosos. Assim, parte-se do cotidiano para atingir sentimentos intensos. Este talvez seja o grande barato do disco, ser catapultado pela simplicidade e atingir voos altos. A capa do disco parece ir nesse sentido também, aliando o mundano (descansar na piscina) com o absurdo (o urso gigante)

O combo “Something Bigger” e “The First Day” funciona como os primeiros passos para embarcar na jornada familiarmente fantástica de Villagers, iniciando com texturas mais esparsas até cair na melodia principal da segunda faixa, algo que nos remete a um toque de Sgt. Peppers. “So Simpatico” é límpida e refrescante no piano, aludindo aos anos 1970, uma das eras de ouro do Folk. “Restless Endeavour”, por sua vez, se aproxima mais da psicodelia, pela presença de uma célula rítmica repetitiva a partir da qual é construída a amálgama de sintetizadores, cordas e sopros que contagia o ouvinte. A faixa-título é essencial para entender na prática a habilidade que o grupo tem com as melodias, traduzindo-as de forma simples e extremamente envolvente. Por fim, “Deep In My Heart” fisga o ouvinte aos poucos de volta à superfície, em tons mais brandos e andamentos mais lentos – quase como se estivéssemos acordando deste sonho febril, representado no título do trabalho.

Mesmo alcançando a marca de seis discos, Villagers continua firme em trazer novos esforços para fazer do Folk um laboratório particular. Fever Dreams é mais intenso do que outros trabalhos e igualmente autêntico. Os movimentos entre a Psicodelia e o Folk fisgam nossa atenção – sempre há alguma coisa perdida nos arranjos que nos joga de volta para a toada principal. Villagers nos dá a faísca inicial para voar, mas nunca nos perde de vista, pois o foco, apesar de todos os excessos lisérgicos, ainda é aquela mesma intimidade (e sinceridade) do Folk.

(Fever Dreams em uma faixa: “Deep In My Heart”)

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ARTISTA: Villagers

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.