Resenhas

Vinyl Williams – Azure

Quinto disco repensa excessos característicos de sua sonoridade sem abrir mão de uma experiência profunda e de lisergia pontual e certeira

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Ano: 2020
Selo: Requiem Pour Un Twister
# Faixas: 11
Estilos: Psicodélico, Dream Pop
Duração: 38'
Produção: Vinyl Williams

Nos últimos anos, a psicodelia tem atraído cada vez mais entusiastas para sua missão de proporcionar viagens transcendentais por meio de sonoridades diversas. Nesse campo fértil e desimpedido, o experimentalismo é uma eficaz ferramenta para se atingir diferentes estados de transe e o que não faltam são exemplos de artistas cuja arte se constrói a partir do excesso – de instrumentos, timbres, harmonias e propostas. Entre estes, está o produtor e compositor Lionel Williams, conhecido por seu projeto multimídia Vinyl Williams.

Lionel sempre fez do excesso uma matéria prima e um caminho certeiro para criar uma experiência verdadeiramente única. O reverb é um elemento indispensável de sua obra, seja prolongando as melodias espirituais da voz aérea ou criando texturas intermináveis de guitarras e sintetizadores. Assim, quando somos lançados a uma obra de Vinyl Williams – e o “lançado” cai bem aqui –, nos inserimos em uma atmosfera grandiosa e, sobretudo, misteriosa. Essa incompreensão aparente é representada visualmente nos projetos audiovisuais que ele mesmo dirige. Basta ver qualquer um dos clipes de seu álbum Opal, de 2018. Com quatro disco nas costas, Lionel parecia ter criado uma relação mutualística com ecos e reverbs. Entretanto, seu novo disco aponta um caminho diferente, ainda que igualmente misterioso.

A impressão que temos ao escutar Azure é de que o processo agora é inverso ao que naturalmente Lionel construiu até aqui. Ao invés de somar camadas e camadas de pads e texturas, ele se preocupa em retirar os excessos. Aqueles longos ecos que permaneciam ressoantes por toda a música cedem espaço a uma parcimônia mais certeira, como se a intenção de Lionel não fosse nos impregnar da lisergia, mas atingir em pontos mais específicos. E não é que ele tenha suprimido totalmente esses efeitos, mas há uma clara manifestação de comunicar mais por meio de menos (muito menos). O curioso é que mesmo suprimindo muito destes elementos característicos, o disco ainda conserva a intensa carga psicodélica característica de Vinyl Williams. Uma psicodelia fundada em truques bruscos de edição de áudio, texturas nostálgicas típicas de um processamento VHS, equipamentos analógicos dos anos 1980 e melodias etéreas na voz.

O pontudo baixo já nos sacode aos primeiros segundos do disco, com a suave e bem orquestrada “LA Egypt”. “Zum”, mais rápida, traz ao fundo toques sutis de sintetizadores que perpetuam a sensação de uma presença fantasmagórica. Por sua vez, os arranjos de corda de “Never Tell The World” confundem propositalmente, levando-nos de um conforto passageiro a um estridente e ágil flerte com o Post-Punk. A faixa-título inicia quase como uma vinheta retirada de algum canal do tempo, brincando com diferentes referências e se encaixa como material primordial para o sentimento psicodélico da produção. Até mesmo uma Bossa Nova estilizada ganha espaço, na iluminada “Magic Land”. “Earth Observatory” finaliza o trabalho como um encerramento de série sci-fi dos anos 1970, e liberta um pouco mais os reverbs, criando texturas densas e mágicas.

Lionel Williams se recusa a permanecer em um círculo criativo, apesar de ter em suas mãos uma sonoridade preciosa e única. Azure o coloca em movimento constante, reconsiderando escolhas e trazendo novas abordagens para a música psicodélica. Um disco em que a lisergia é construída na minúcia da subtração, ao passo que dialoga com excesso de preciosismo por parte de Vinyl Williams. Uma experiência direta e, ao mesmo tempo, profunda.

(Azure em uma faixa: “Azure”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.