Resenhas

Wado – A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa

Com arranjos mais singelos, o compositor potencializa o aspecto emocional de sua obra em um disco belo e tocante

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Ano: 2020
Selo: LAB 344
# Faixas: 12
Estilos: MPB, Singer-songwriter, Pop Rock
Duração: 34'
Produção: Wado

Pode parecer óbvio, mas o cantor e compositor Wado tem uma relação muito íntima com a música brasileira, transcendendo a mera eventualidade de ter nascido no Brasil. Em sua carreira, somam-se 11 discos que transcorrem pelos mais diversos cantos da música nacional. Seja na pluralidade de ritmos de Vazio Tropical (2013), no aspecto Pop solar de 1977 (2017) ou na sedução malemolente de Ivete (2016), o fato é que Wado se reconhece em diversas formas com que as sonoridades brasileiras se expressam.

Sua constante obstinação por nunca se acomodar no mesmo lugar é o que torna sua discografia tão arrebatadora, nos envolvendo a uma aura de mistério a cada novo lançamento – uma imprevisibilidade prazerosa. Wado e a música brasileira se combinam, se misturam e são inseparáveis, e o grande tema de seu novo disco é justamente essa relação mutualística. Uma relação tão sincera que, aqui, são necessários apenas uma voz e um violão.

Em A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa, Wado dispensa os exageros de arranjos complexos e repletos de bateria em prol de canções mais simples e não por isso menos tocantes. As melodias cativantes continuam presentes e, de uma maneira ou outra, temos a oportunidade de encará-las de forma mais central. Nada nos distrai de ouvirmos as canções pelo que elas são em sua essência. Seria muita injustiça e imprecisão se referir a esse trabalho sob uma nomenclatura guarda-chuva como “acústico”, pois, se as músicas são despidas até seus elementos mais básicos, é porque eles são, inevitavelmente, essenciais. Este talvez seja o ponto chave do disco: trazer um foco para aquilo que é mais indispensável em suas canções. Como um trabalho de garimpo, que peneira até encontrar o brilho singular de uma pedra em meio ao barro.

É claro que a ideia de o disco ser “voz e violão” também é uma generalização. Somam-se a estes elementos os arranjos de piano, cordas, coros, flautas, sintetizadores. Mas tudo de forma precisa e pontual. O que poderia parecer um disco minimalista de Wado perde um pouco esse status frente ao dilúvio emocional que cada canção traz. Isto não é necessariamente uma novidade para quem conhece sua discografia. Mas parece que, por estarmos imersos nesta dinâmica de trazer apenas o essencial às composições, a carga emocional é sentida com mais força. Como se a instrumentação trabalhasse a favor de nos arrebatar com sentimentos tão intensos. O minimalismo aparente dá espaço então para um maximalismo introspectivo.

Para ajudar nessa missão, Wado conta com participações muito especiais, cada qual contribuindo à sua maneira com o tom de cada canção. “Faz Comigo” abre o repertório com FLORA e a canção se torna uma espécie de metonímia do disco, principalmente nas primeiras palavras “Invadindo meus espaços / Dividindo meu abrigo”. Lucas Santtana empresta sua voz na delicada e ensolarada “Nina”, uma canção impossível de não se contagiar pela atmosfera amorosa ao seu redor. A cantora Cris Braun pinta um tom otimista na curta e envolvente “Para Anthony Bourdain”, em contradições como “Essa é a noite do dia”. Zeca Baleiro e Patrícia Ahmaral interpretam com Wado “Depois Do Fim, composição de teor fantástico, repleta de melodias mágicas e letra de poesia ímpar. Por fim, “Sereno Canto” encerra o disco com um arranjo grandioso de cordas, nos alojando em uma grande coberta melódica, em pleno conforto.

Wado nos surpreende mais uma vez com uma direção artística que, apesar de não ser necessariamente uma novidade, é intensa e poética, como sua obra. Parece que seu título é longo para nos comunicar suas intenções logo no início. A beleza (que deriva do mundo) pode até escapar, mas não de Wado. Não nesse disco.

(A Beleza Que Deriva… em uma faixa: “Sereno Canto”)

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ARTISTA: Wado

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.