Resenhas

Washed Out – Purple Noon

Ernest Greene renova inspirações e, em disco complexo e coeso, vai além da Chillwave

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Ano: 2020
Selo: Sub Pop Records
# Faixas: 10
Estilos: Chillwave, Synthpop, Ambient Pop
Duração: 51'
Produção: Ernest Greene

Nomear uma estética sonora pode se revelar uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que dar um nome próprio traz uma vantagem sistemática para uma pesquisa de referências, há também um movimento restritivo. É muito comum que um artista fique por muito tempo ligado a este nome e estimule críticas saudosistas que sempre o avaliam à luz daquele gênero – como uma espécie de fardo do passado. Ernest Greene é um artista que entende este peso. Particularmente em seu caso, é difícil dissociá-lo do gênero musical que, segundo muitos, ele criou. Falar de Chillwave e Washed Out é praticamente um pleonasmo hoje em dia.

Mesmo assim, Ernest Greene não se deixa levar por essa corrente e sua discografia tem mostrado este movimento contra intuitivo de forma clara. Já em seu segundo disco, o aclamado Paracosm (2013), notava-se um compositor mais preocupado com a experimentação para além da denominação Chillwave – principalmente nos toques de psicodelia e na minúcia delicada da estrutura de canção Pop. O auge de experimentação até então ficou reservado para Mister Mellow (2017), disco que assume o recorte de samples como roupagem primordial, transformando e ressignificando trechos de diferentes origens, do Jazz ao Rock. E agora, com seu novo disco, no lugar de dar mais um passo em direção ao mirabolante experimental, Ernest se permite buscar novas referências em lugares inusitados.

Purple Noon se usa dos excessos como matéria-prima. A ambientação e produção suavemente calma das faixas poderia nos dizer o contrário, que este é um trabalho sobre parcimônia e suavidade, remontando a uma sensação de escapismo moderno típica do primeiro disco, Within and Without (2011). Entretanto, todos estes elementos são provenientes de gêneros hiper reproduzidos em diferentes veículos comerciais. Há batidas típicas do R&B da metade da década de 2000, timbres estereotipados dos sintetizadores analógicos dos anos 1980 e, até mesmo, arranjos de pianos cafonas do Smooth Jazz (no melhor estilo Antena 1/Alpha Fm). Greene não parece interessado em trazer esses estilos populares apenas como recurso irônico, mas como novas potencialidades a serem exploradas em sua sonoridade característica.

Da mesma forma que há esse olhar atento para os gêneros corriqueiros, existe também a busca pela inspiração naquilo que por muito tempo foi uma simplificação de sua estética: a Chillwave. Purple Noon se revela um momento de conciliação. Não que o produtor tivesse de alguma forma rompido relações em algum momento. Mas, neste trabalho, ele revisita suas primeiras experiências como produtor musical olhando para elas de uma forma mais libertadora. Greene não está mais preso a Chillwave, mas certamente reconhece o seu valor ao construir o universo de Purple Noon. Por isso, apesar de ter tantas referências dos lugares mais diferentes possíveis, o disco soe tão coeso. Está tudo amarrado sob o mesmo véu: o olhar de Ernest – preciso e ávido por novas conexões.

O disco abre com uma rica paleta de timbres de sintetizadores com a dançante “Too Late”, definindo um tom nostálgico que acompanha todo o repertório. A predileção de Ernest por espaços grandes é representada por “Time To Walk Away”, produção traz conforto por meio de reverbs intermináveis. A Ambient Music ganha forma sobre a complexa e hipnótica “Game Of Chance”, um infinito mar de violões sobre o qual ele derrama sua voz.  “Leave You Behind”, por sua vez, talvez seja o momento que mais se aproxima dos primeiros momentos da Chillwave, principalmente no registro oculto de Washed Out, High Times (2009). Para finalizar, o produtor nos deixa com uma parcela mais tristinha deste novo mundo por meio da melancólica e pulsante “Haunt”.

O novo disco de Washed Out é ambíguo. Procura por novas referências e, ao mesmo tempo, se aproxima do passado com ainda mais intensidade. Da mesma forma que estabelece um mundo relaxante e infinito, ele o faz com elementos de gêneros super reproduzidos pela mídia. É complexo, porém extremamente pontual em sua abordagem. É justamente nesses pares opostos que Purple Noon tece um microcosmo particular que revela o talento ímpar de Ernest Green. Para muito além de uma simples categorização como nome da Chillwave.

(Purple Noon em uma faixa: “Leave You Behind”)

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ARTISTA: Washed Out

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.