Resenhas

Water From Your Eyes – Everyone’s Crushed

Sexto álbum da parceria entre Rachel Brown e Nate Amos é, ao mesmo tempo, intenso, irônico e humano

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Ano: 2023
Selo: Matador Records
# Faixas: 9
Estilos: Indie, Indie Rock, Indie Pop
Duração: 31'
Produção: Nate Amos

Vivemos em 2023 a era vibes, a era aesthetics, marcada por expressões multimídia compartilhadas por certo grupo de pessoas que se identificam imediatamente com aquela mensagem, mesmo se ela não contiver uma só palavra. É um movimento próprio dos meios digitais e, mais especificamente, das redes sociais, em que uma publicação de uma foto – com determinadas cores, elementos e tratamento de imagem – acompanhada de uma música – com específicos timbres, atmosfera e ritmos – comunica mais do que um estado de espírito, mas uma identidade.

Water from Your Eyes é cria desse momento. Everyone’s Crushed, seu sexto álbum de inéditas em sete anos de discografia, combina de maneira espertinha, quase sempre simpática e bastante imersiva certo número de elementos a cada faixa, de modo que aquele clima alcançado seja a própria mensagem da composição. É um disco um tanto intenso para a praticamente meia hora de duração que se propõe a ter, e ele parece ter sido feito – mesmo que em algum grau de inconsciência – para que seu público se visse nas canções em um plano essencialmente sensível, aquele facilitado pela arte, no qual as sensações transmitem o que nem sempre se pode nomear – aesthetics mesmo.

A obra se aproveita da experiência do duo Rachel Brown e Nate Amos dentro e fora desse projeto (eles são respectivamente das bandas Thanks for Coming e This Is Lorelei). Juntos, os músicos misturam dissonâncias, ruídos e quebras de ritmos em nome de uma beleza compartilhada por todo aquele que conhece esse lugar indie no qual o belo nasce da imperfeição. No geral, são poucos instrumentos a cada faixa, mas eles ocupam muito do plano sonoro e constroem narrativas sacolejantes, que jogam ouvintes de um lado a outro e transmitem muito bem como se sente quem tem a cabeça e/ou o coração muito cheio (que atire a primeira pedra quem não tem).

A faixa-título é a mais emblemática de toda a audição, e não é difícil entender por que ela batiza todo o disco. De início arrastado, ela comenta o estado caótico de sentir tantas coisas ao mesmo tempo (“I’m with everyone I love and everything hurts, I’m in love with everyone and everything hurts, I’m with everyone I hurt and everything’s love”) e termina em um longo período instrumental descompassado e um tanto divertido. Tudo é um tanto irônico, mas tudo é bastante humano.

Não é a primeira vez que você encontrará um álbum feito dessa forma, e ele nem se propõe a ser tão original assim, mas Everyone’s Crushed se destaca não apenas pela alta qualidade de sua produção, mas porque ele chega ao mundo em um momento em que todos esses sentimentos simultâneos e, ainda assim, contrastantes – ou mesmo contraditórios – se fazem presentes na avalanche de informações que nos atinge diariamente e na quantidade insalubre de notícias ruins com as quais temos que lidar o tempo todo. Dê o play e também se identifique.

(Everyone’s Crushed em uma faixa: “Everyone’s Crushed”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.