Water From Your Eyes é uma dupla de Chicago formada por Nate Amos e Rachel Brown. It’s a Beautiful Place é o segundo álbum do duo lançado sob a tutela do selo Matador e chega cumprindo a expectativa que vem se criando desde o hype com o trabalho antecessor, Everyone’s Crushed (2023).
Noise pop ainda continua sendo um bom termo para descrever a música da dupla, dona de uma sensibilidade melódica, mas que nunca deixou de se arriscar por terrenos instáveis do barulho e da eletrônica experimental. No entanto, agora, a atmosfera está mais solar do que antes, embora acordes maiores e, enfim, a sensação de esperança não sejam exatamente os ditames da música aqui. Com estruturas mais definidas, menos industrial, synth e timbres identificáveis, It’s a Beautiful Place é marcado pela estética shoegaze, mas se recusa a permanecer num gênero só.
Depois de uma ambiência aquática e oscilante que serve para abrir o disco, “Life Signs” traz um riff inquieto e de compasso ímpar. Mais adiante, “Playing Classics” começa sem medo de ser feliz na estética Eurodance. Já a faixa-título exibe um solo dolorido de guitarra que parece diretamente saído dos dedos de John Frusciante, embora a banda tenha esclarecido que os solos de guitarra por aqui são apenas irônicos. Nesse vai e vem de estilos, sobressai um senso de que Nate e Rachel sabem o que estão fazendo, possuem repertório e se sentem agenciados o suficiente para desconstruí-lo.
Para além da produção, o que se destaca é o tom despretensiosamente existencial do álbum, inspirado, de acordo com a banda, pela literatura da ficção científica. It’s a Beautiful Place tenta extrair um significado da vida através da elaboração de um mundo próprio. É um pouco como aquela sensação de encontrar um amigo confidente na adolescência, uma joia rara que gosta das mesmas esquisitices que você. Em uma entrevista, por exemplo, a banda declarou: “Nate e eu somos bastante existenciais. Acho que foi por isso que nos conectamos quando nos conhecemos – a natureza filosófica da existência, as teorias da conspiração e os alienígenas”, diz Brown. Amos concorda: “Acho que nós dois encontramos um certo consolo em aceitar o fato de que nós, como espécie, não entendemos tanto quanto gostamos de pensar que entendemos”.
Water From Your Eyes talvez exemplifique bem a figura do rockstar contemporâneo. Após assinar com um selo de sucesso, começou a ganhar cada vez mais destaque na mídia musical e angaria mais e mais aparições nas redes sociais. Com uma sonoridade desconstruída, cool, e de olhar apático para o mundo, tenta disfarçar uma dedicação real à sua música.
Talvez num mundo onde tudo se tornou performance, onde instabilidade política e crise climática sejam forças grandes demais para assimilar, fique a cargo das bandas realizarem esse curto-circuito, no qual a performance é justamente tentar mostrar que a performance não importa tanto assim. Mas, divago. Na verdade, as harmonias tortas de Water From Your Eyes remetem a algo no meio do caminho entre bandas como Crumb ou Yuck, cuja gênese pode ser traçada ali nos tempos áureos da Pixies. Com algo mais sofisticado do que rebelde, Water From Your Eyes demonstra, sem querer, uma húbris juvenil disfarçada de apatia que é, na verdade, atemporal.
(It’s a Beautiful Place em uma faixa: “Life Signs”)
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