Resenhas

Weezer – Weezer (The White Album)

Quarteto americano lança mais um de seus “álbuns coloridos”

2,578 total views, no views today

Ano: 2016
Selo: Crush Music
# Faixas: 10
Estilos: Rock Alternativo, Power Pop, Punk Pop
Duração: 34:08
Nota: 4.0
Produção: Jake Sinclair

Weezer é uma das bandas mais queridas dos anos 1990. Sua proposta sempre foi a de dar voz a nerds de todos os matizes e chamá-los para o palco, para o microfone de um estúdio, para a vida em alta velocidade, típica das estrelas do Rock. Claro, tudo isso de uma forma subversiva do sistemão de fama e fortuna, colocando nas capas de revista e nos clipes da MTV um sujeito como Rivers Cuomo, atormentado, tímido, maluco, sem muita estrutura emocional, mas grande compositor e detentor de uma autoironia bastante louvável. Ao longo de uma carreira de 22 anos e 10 discos, incluindo aí a compilação de lados-B Death To False Metal (2010), Weezer ofereceu álbuns normais aos ouvintes. E ofereceu os chamados “discos coloridos”. O admirador da banda já sabe que, quando o quarteto californiano solta um desses álbuns, a ideia é intensificar sua mensagem, afirmar sua origem, mostrar quem é dá as ordens neste terreiro. E, bem, estamos diante do White Album, seguindo a tradição de álbuns homônimos com capas com preponderância de uma só cor.

Tal linhagem de obras abrange a estreia do grupo, de 1994; o sensacional terceiro trabalho, conhecido como Green Album (2001) e o subestimado sexto disco, Red Album (2008), o último nesta categoria cromática-sentimental-musical, o que não quer dizer, entretanto, que a banda se acomodou, pelo contrário. A vida segue intensa para Rivers e seus amigos, em alta rotatividade em shows, lançamentos, cruzeiros e toda sorte de situação em que possam tocar ao vivo e acarinhar seus fiéis fãs. Agora, depois de todo esse tempo, um novo integrante desta série de álbuns. Qual seria sua principal característica? Eu vos digo: a alopração de Rivers. Não vá pensando que é algo sobre sexo, drogas e rock’n’roll, ou, pelo menos, não da forma convencional.

As canções do álbum foram compostas a partir de uma temporada que Rivers passou por Venice Beach, com tempo de sobra para observar as pessoas, o próprio – e alardeado – “California State Of Mind” e paquerar – segundo consta nas informações oficiais – pelo aplicativo Tinder. Enquanto isso tudo acontecia, do alto de seus 45 anos, o sujeito foi compondo melodias e escrevendo letras sem qualquer limitador. Na sonoridade, White Album abraça o Powerpop metaleiro chiclete que a banda desenvolveu desde o início de sua carreira, aproveitando o referencial geográfico do conceito musical reinante para dar acenos nerdificantes à obra de The Beach Boys, uma referência que sempre pareceu no inconsciente da banda, sobrando muito mais espaço para o milkshake de Van Halen, Kiss e Nirvana dominar as ações. Aqui as coisas estão muito mais praianas e relaxadas, mas sem abrir mão do nível mínimo de tensão e dificuldade de inserção na vida americana contemporânea, marca registrada de Rivers.

Há várias canções belas e adoráveis por aqui. A abertura com California Kids lembra uma cruza de Green Day circa 1994 com Brian Wilson, guardando espaço para melodia memorável e guitarrinhas características. Os Garotos da Praia assombram totalmente a quarta faixa, (Girl We Got A) Good Thing, certamente a mais bem cotada candidata à melhor faixa do álbum e séria postulante a entrar para a galeria de canções douradas de Weezer. Pianos do bem se juntam à habitual massa sonora da banda, contribuindo para uma mansidão que soa como um carinho da pessoa amada, mas que, como toda canção Powerpop, guarda um acento mínimo de guitarras pesadinhas. Mais belezuras surgem na junkie Do You Wanna Get High, composta a partir da dependência de medicamentos sofrida por Rivers há alguns anos; na bandeirosa Summer Elaine And Drunk Dori, que cita a introdução de Lithium, canção de Nirvana, banda da qual Weezer sempre retirou boa parte de seu DNA Pop raivoso. LA Girlz é típica criação “weezeriana” de balada gritada, torturada e revestida por guitarras barulhentas, naquela tão querida mistura de peso e delicadeza, uma das armas secretas do quarteto. A baladinha com começo voz/violão e final explodindo, Endless Bummer, fecha os trabalhos com dignidade e pedigree suficientes.

Com todas as características que fazem de Weezer uma bela banda, este White Album é para ser apreciado com calma e atenção. Certamente surgirão mensagens secretas, luminosidades inesperadas e acenos aos temas que sempre nortearam sua produção, que se resumem em algo mais ou menos assim: “como ser sensível num mundo como o nosso, sem se ferrar completamente?”. Se você tem essa dúvida, seja qual for a sua idade, Weezer é uma banda que você deve considerar seriamente.

2,579 total views, 1 views today

BOM PARA QUEM OUVE: Ash, The Rentals, Nada Surf
ARTISTA: Weezer

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.