Resenhas

Westerman – Your Hero Is Not Dead

Com narrativa de transformações internas e externas, marcante disco de estreia mistura toques eletrônicos a tradições do Folk

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Ano: 2020
Selo: Play It Again Sam
# Faixas: 12
Estilos: Eletrônico, Folk, Ambient-pop
Duração: 39'
Produção: Bullion e Will Westerman

A música é capaz de transformar seus ouvintes e, muitas vezes, produzi-la também transforma seu criador. Will Westerman, conhecido apenas como Westerman, parece ter, involuntariamente, usado seu disco de estreia, Your Hero Is Not Dead, como forma de conversão de espírito e astral durante as tantas e irresistíveis mudanças provocadas pelo período da pandemia. E, de quebra, em meio à purgação, nos entrega doses necessárias de realidade – doses, como não poderia deixar de ser, que também nos transformam.

Will lança músicas desde 2016 em forma de curtos e sinceros EPs. Neles, o compositor dividi seus pensamentos sob influências do Folk, principalmente da fatia mais introspectiva possível, como Nick Drake e Neil Young. Entretanto, aspectos da música eletrônica (principalmente batidas construídas em sintetizadores) também despontavam pelos primeiros registros e, mais adiante em sua discografia, aparecem de forma mais atuante e nítida. Apesar da fusão de diferentes elementos, Will sempre se mostrou um defensor nato do aspecto sincero e introspectivo da música Folk. A forma como a narrativa é sempre priorizada é um elemento fundamental de sua arte. Suas produções sempre partem de uma demanda própria, uma demanda que sofre mudanças constantes: tanto por parte de Will, como pela forma com que ele se insere no mundo.

Assim, a transformação é parte integrante da obra de Will. É justamente nesse momento de mudanças tão arrebatadoras, como as promovidas pela pandemia, que o compositor encontra um momento propício para trazer ao mundo seu disco de estreia. O disco é composto de 12 faixas que procuram abrigar as transformações caóticas do mundo em produções introspectivas e etéreas. Will não quer oferecer ao ouvinte uma experiência banal e óbvia daquilo que percebe. Não é porque tudo está um caos que sua sonoridade precise refletir isso de forma igualmente caótica.

E assim emerge a subjetividade e a reflexão pessoal de Will. O aspecto Folk de sua obra nunca o abandonou, e, se tem uma coisa que o compositor aprendeu com essa escola, foi o uso, na construção das histórias, da intenção dos acordes a seu favor. Will demonstra a capacidade de manipular o ouvinte a sentir aquilo que convém para a narrativa. Ele é como um feiticeiro, que tem o domínio de sua arte, mirando seu alvo. Your Hero Is Not Dead nos conduz como se flutuássemos pelos destroços de uma civilização, observando as marcas de destruição, bem como as estruturas rígidas que ainda sobrevivem. É certamente um disco sobre persistência e significar dores do passado.

“Drawbridge” introduz o repertório com vocais amplos e reverberados (no melhor estilo Crosby, Stillis & Nash) e depois nos hipnotiza constantemente com seus sutis sintetizadores ao fundo. “Waiting On Design” traz timbres oscilantes que ocupam o espaço, para, logo em seguida, serem suprimidos em um arranjo minimalista conduzido pela frágil e precisa voz de Will. “Easy Money” tem apelo oitentista em seus sequenciadores constantes, mas também não deixa de flertar o Indie jovial do final dos anos 2000. “Confirmation (SSBD)” constrói em sua monótona batida o alicerce para ir crescendo aos poucos em uma das canções mais emocionantes e tocantes do disco. A faixa-título é justamente a que o encerra, com sinceros e calorosos acordes de piano. Como se fossem um ponto final de descanso de toda esta epopeia emocional que, apesar de não ser caótica na forma, suscita essa desorganização em nós.

Will Westerman traz uma estreia decisiva e marcante. Uma estreia que coloca sua marca na tradição Folk, como um habilidoso mestre que funde diferentes referências em prol de sua história. A maneira como ele cria um amálgama minimalista de sensações, texturas, acordes e letras faz com que toda aquela enorme quantidade de informações seja processada em pequenas células. Toda a complexidade do mundo está nesses arranjos simples e isso torna a verdade indigesta muito mais facilmente digerível. Como se fossem pílulas de realidades intragáveis.

(Your Hero Is Not Dead: em uma faixa “Confirmation (SSBD)”)

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ARTISTA: Westerman

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.