Resenhas

Willow – lately i feel EVERYTHING

Em flerte intenso com o Pop Punk, cantora dá tom mais explosivo a temas como ansiedade e busca por autoconhecimento

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Ano: 2021
Selo: MSFTSMusic, Roc Nation and Polydor Records
# Faixas: 11
Estilos: Pop Punk, Rock
Duração: 26'
Produção: Willow, Tyler Cole e Travis Barker

É inegável: está no ar um flerte com o Pop Punk dos anos 90 e 2000. Para acabar com qualquer implicância geracional, lately i feel EVERYTHING (2021) combina riffs de guitarra grudentos com vocais agudos gritados, que se desmancham em ganchos melodiosos. Nessa corrente de discos que referenciam de Green Day a Avril Lavigne, de Blink-182 a Paramore, Willow entrega a equação ideal entre as influências, abusa de sua capacidade enquanto vocalista, sem perder, entretanto, o que há de mais fascinante na caçula Smith: ela tem algo a dizer.

Tematicamente, lately i feel EVERYTHING não se desgruda tanto dos trabalhos anteriores de Willow. A artista aproveita a nova investida para dar tom mais explosivo a temas que já lhe são caros, como ansiedade e busca por autoconhecimento, presentes em suas composições desde o belíssimo primeiro álbum, ARDIPITHECUS (2015). Willow experiencia crises de ansiedade desde que “Whip My Hair” dominou Hot 100 há dez anos . Quer dizer, entrar na Roc Nation e ser apadrinhada pelo Jay-Z pode parecer o cenário ideal para qualquer cantora Pop, mas sair em turnê mundial — acompanhando Justin Bieber, amigo de Willow até hoje — aos dez anos de idade foi um cenário um tanto quanto intimidador. Desde então, falar sobre ansiedade não tem sido apenas um ímpeto, mas uma necessidade: trata-se de uma discussão fundamental para que ela possa se acolher.

O quarto disco de estúdio compartilha muitas similaridades com THE ANXIETY (2020), álbum criado em parceria com Tyler Cole, que aqui também assina a produção ao lado de Willow e Travis Barker. Ao mesmo tempo, lately i feel EVERYTHING traz uma progressão mais natural dentro do universo de Willow, regado a R&B e Soul – logo, serve como um caminho mais seguro para quem já é fã conhecer o lado Rock de Willow Smith.

É possível que a escolha e o desenvolvimento dessa sonoridade venham como reflexo tanto do repertório de sua mãe, que já fora cantora e compositora da banda de Heavy-Metal Wicked Wisdom antes de abraçar a carreira de atriz, e também produto da vivência, em primeira pessoa, da brutalidade policial na repressão aos protestos antirracistas do Black Lives Matter. Enquanto em “Believe That”, terceira faixa de THE ANXIETY, Willow dispara “Hey, mama, look at me in my black skin / I was killed by the police in my black skin”, em “naive”, quinta música de lately i feel EVERYTHING, ela canta “While I sit up in my room, I get a phone call / It`s my niggas saying, Can you pick us up? We got shot by rubber bullets at a protest at the Bronx, yeah”.

O projeto do duo se desdobrou em uma performance artística no Geffen Contemporary, parte do Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (MOCA). Semanas antes do início da pandemia de Covid-19, Willow e Tyler se trancaram em uma sala toda branca por 24 horas, com o propósito de performar os estágios de uma crise de ansiedade; paranoia, raiva, tristeza, inércia, euforia, grande interesse, compaixão e aceitação eram performados ciclicamente pelos dois, que podiam ser observados pelo público por uma parede de vidro. Em entrevista ao Los Angeles Times, Willow disse que, após THE ANXIETY, ela e Tyler pensaram “Não seria interessante se a gente pudesse personificar essa experiência? A partir do sentimento de medo e solidão caminhar para um espaço de aceitação e alegria?” Ao sair da performance, o público era levado a uma sala com livros de autoajuda e estações abertas a doações para organizações que trabalham com saúde mental.

De Avril Lavigne à brilhante Tierra Whack — com destaque para a contribuição de Travis Barker que está em duas das faixas mais marcantes, “t r a n s p a r e n t s o u l” e “Gaslight” —, a lista de participações de lately i feel EVERYTHING demonstra o olhar (e ouvido) afiado de Willow para o encontro que ela e Cole propõem com o disco, que em suas iniciais (l.i.f.E.) forma a palavra vida, e em seus temas e batidas expressa, com personalidade, o furor criativo de uma jovem artista de 20 anos de idade.

(lately i feel EVERYTHING em uma faixa “Come Home”)

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ARTISTA: Willow Smith