Resenhas

Woods – With Light and With Love

Evolução na produção é o suficiente para tornar o som da banda mais acessível, sem perder a personalidade que os tornaram populares

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Ano: 2014
Selo: Woodsist
# Faixas: 10
Estilos: Folk Rock, Rock Psicodélico, Indie Rock
Duração: 39:00
Nota: 4.0
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fwith-light-and-with-love%2Fid794034892%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

Há poucos dias, tive uma interessante discussão com nosso redator Lucas Cassoli sobre o quanto é válido, justo ou relevante julgar uma banda por ter repetido fórmulas de um disco anterior. Adianto que não chegamos a uma conclusão definitiva, se é que isso é possível. Mesmo assim, foi um bate-papo interessante e que grudou em minha cabeça, me forçando a encontrar exemplos de álbuns em que essa repetição ficava no limite da falta de criatividade e de discos em que isso só fortalecia a personalidade e consolidava o artista dentro de um estilo.

Ouvindo With Light and With Love, novo e sétimo disco da banda do Brooklyn Woods, me pareceu a prova perfeita de que uma boa fórmula pode durar muito tempo sem se esgotar, desde que executada com criatividade, personalidade e que evolua naturalmente, de alguma forma, a cada obra.

A maneira que Jeremy Earl e companhia encontraram de mostrar essa evolução fica bastante clara para quem vem acompanhando a carreira da banda, apesar de bastante sutil a ouvidos recém chegados. O grupo começou com uma proposta de Folk com toques de Psicodelia e Noise bastante particulares e tinha na produção caseira e Lo-fi um elemento que dava coesão a essa mistura de estilos. Estas três principais influências soam confortáveis quando gravadas sem aquele capricho exagerado, ficam com uma personalidade diferente, aproxima bastante o ouvinte dos músicos e esse é o ingrediente que faz da discografia do quarteto uma das mais consistentes da música independente americana recente.

Por isso, uma das claras evidências de mudança entre um disco e outro é o capricho maior na produção. Nem acredito que seja algo muito pensado, já que todos ali são apaixonados por equipamentos musicais e por já gastarem muito dinheiro com isso, nunca viram sentido em gravar em um estúdio externo que não a própria casa do vocalista – que além de tudo abriga o selo próprio Woodsist, gravando outros nomes também. Com o tempo, eles vem conseguindo aumentar a qualidade do material, que soa mais limpo, mais polido, mas sempre com a mesma alma que nos atraiu para o som deles em primeiro lugar.

O uso da voz de Jeremy também entra nessa linha evolutiva da banda. O falsete constante continua lá, mas um pouco mais controlado, sem tentar chegar onde poucas vozes conseguem, fator que acabava irritando alguns dos que demoram a gostar da banda. Mais do que por um capricho de produção, essa melhor exploração da voz é fruto de um maior planejamento da banda, que começou com Bend Beyond, último trabalho dos rapazes e que trouxe o maior salto tanto nessa questão do capricho, quanto também trazendo faixas mais pesadas, mais densas. Seus primeiros trabalhos eram bastante levados no improviso, sem muito ensaio e segundas versões, o que intensificava o clima lo-fi das canções e resultava em faixas bastante experimentais com solos psicodélicos e viagens criativas que iam muito além das canções girando em torno das letras românticas, o forte do grupo.

Em With Light and With Love, faixa título – e uma das melhores do ano até agora -, temos a prova máxima de que esse maior planejamento e cuidado técnico não atrapalharam a criatividade e originalidade dos garotos. Em mais de nove minutos, temos solos e riffs de guitarra bem marcantes – lembrando bastante o Krautrock de Can -, um clima menos ensolarado e mais tenso – parecido com o que havíamos visto na faixa título do disco anterior pela primeira vez – em uma faixa épica, misturando todas as referências do Noise, do Folk e da Psicodelia que conhecem como poucos.

Destacando outros pontos em que encontramos essa evolução que tanto discutimos, temos Moving To The Left, talvez a canção mais acessível já produzida por eles. Se já ouviu ou leu qualquer coisa sobre esta faixa por aí, é impossível não perceber a influência dos trabalhos mais populares de Flaming Lips, principalmente na percussão e na linha de baixo.

Só para contrapor e mostrar que a raíz deles continua por ali, é impossível ignorar a deliciosa Shepherd, que, para qualquer brasileiro, mais do que Folk, é uma música caipira, a introdução não mente. Este é o tipo de faixa que torna Woods a banda perfeita para relaxar, ouvir antes de dormir ou curtir uma boa viagem de carro. Para quem ouve muita música, ótima para contrapor momentos em que estamos cansados de ouvir tanto grave das batidas eletrônicas, do Hip Hop e queremos um bom agudo confortante.

Pelos motivos já citados, a melhor maneira de embarcar nesta discografia é de trás pra frente, começando com este mais recente lançamento, passando por Bend Beyond, Sun and Shade, At Echo Lake, chegando no meu preferido, Songs Of Shame e indo até os primórdios dessa apaixonante banda. Woods nos lembra sempre, e com With Light and With Love não é diferente, que música é algo muito mais simples do que costumamos considerar e por isso, a companhia perfeita para os melhores e piores momentos.

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Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.