Resenhas

Xênia França – Xenia

Com sinceridade e delicadeza, disco de estreia solo da artista fala sobre ser negra, mulher e forte

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Ano: 2017
Selo: Natura Musical
# Faixas: 13
Estilos: R&B, Soul, Jazz
Duração: 47'
Nota: 4.0
Produção: Pipo Pegoraro, Lourenço Rebetez e Xênia França

“Foi isso que eu quis passar: que nós somos seres humanos, sensíveis como quaisquer outros. Jogaram pra cima da gente uma responsabilidade de ‘aguentar todas as dores do mundo’ e não queremos mais isso. Nesse sentido, vamos continuar cada dia mais expondo pro mundo nossa sensibilidade, até esse estigma de ‘mulher negra forte e agressiva’ acabar de vez”. Essas são palavras de Xênia França, dona dos sentimentos que permeiam Xenia, primeiro trabalho solo composto por treze faixas. Mesmo dissecando pautas áridas como racismo, feminismo e identidade, a cantora baiana consegue conversar com o ouvinte de uma forma delicada e didática quebrando o estereótipo de mulher negra raivosa (angry black woman).

Para trilhar esse caminho, a artista apostou em Michael Jackson, Erikah Badu e James Brown para compor o seu flerte com o Soul, Pop, Jazz e R&B. Além disso, o álbum tem uma característica que me salta aos olhos: ligação direta com a música africana e a cultura Yorubá, construindo uma ambientação única e conectada com a ancestralidade da artista. Já na primeira música, Pra Que Me Chamas?, França faz uma menção aos seus antepassados e nos leva a uma reflexão particular sobre apropriação cultural (“De vez em quando/Um abre a boca/Sem ser oriundo/Para tomar pra si/O estandarte/Da beleza, a luta e o dom/Com um papo/Tão infundo”).

Essa força e sentimento nas letras se espalham também em Preta Yayá (“Música preta, sou teu instrumento, vim pra te servir”) e Garganta, poema da atriz e MC Roberta Estrela D’Alva. Aqui, a falta de representatividade da população negra nos espaços de poder é lembrada. Memória também é um tipo de força, de luta e de protagonismo (“Às vezes acontece um negócio esquisito/Quando eu quero falar eu grito/Quando eu quero gritar eu falo/O resultado calo”). Gravada originalmente pelo artista Chico César, Respeitem Meus Cabelos, Brancos remonta delicadamente a atmosfera criada pela norte-americana Solange Knowles no álbum A Seat at The Table e, principalmente, a temática desenvolvida na música Don’t Touch My Hair, que aborda o cabelo como um instrumento de resistência e empoderamento negro.

Delicado e intimista, Xenia é capaz de dialogar com realismo e sinceridade expondo todas as dores, violências e inquietações que o machismo e o racismo causam quando combinados. Um relato honesto sobre a vida de quem enfrenta essas questões diariamente.

(Xenia em uma faixa: Pra Que Me Chamas?)

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BOM PARA QUEM OUVE: Ellen Oléria, Anelis Assumpção, Céu
MARCADORES: Jazz, R&B, Soul