Xiu Xiu – Angel Guts: Red Classroom

Disco mais obscuro da carreira da banda é também o mais difícil de ser escutado devido a suas inspirações

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Ano: 2014
Selo: Polyvinyl
# Faixas: 14
Estilos: Art Rock, Rock Experimental, Post-Punk
Duração: 45:00
Nota: 2.5
Produção: John Congleton

A imersão no processo criativo de um disco/ pode ser algo extremamente proveitoso. Sempre, a príncípio, é interessante saber que uma obra surgiu a partir da dedicação e da inspiração baseada em uma atmosfera ou em algum conceito que faz sentido ao seu autor. Talvez, a música experimental seja o caminho certo para que tais excursões deem certo. Ou, não.

O nono disco de estúdio de Xiu Xiu não é adequado para qualquer pessoa, já lhe digo de cara. Assustador, denso e, sim, extremamente experimental, o novo trabalho do grupo, que traz sempre a associação de vanguarda ao seu nome, é díficil de ser escutado. Não que tal constatação se dê pelo fato de não escutarmos músicas boas aqui, mas pelo simples motivo de que a entrada em seu espírito exige muito esforço, algo que o ouvinte pode não ter a devida paciência.

Logo de cara, Angel Gut: Red Classroom, se assemelha a um monstro sem feições, mas que tem a sua presença sentida por todos. Veja bem, não estamos falando de um espírito fantasmagórico, porém de algo semelhante ao visto no filme-de-monstro-gigantesco, Cloverfield. Da abertura em Angel Gut:, com seus ruídos baixos, mas amendrontadores, até o puro barulho cacofônico do encerramento em “:Red Classroom”, as faixas demonstram uma densidão estranha e que, se não levarmos em conta as inspirações por trás do álbum, serão consideradas músicas, no mínimo, bizarras.

Se vemos o vocalista e compositor James Stewart no seu momento mais psicótico ao alternar entre momentos de pura raiva, comoção e desespero, isso se deve a um motivo: a imersão criativa por trás da obra. Baseado, acredite ou não, em um filme erótico japonês de mesmo nome e que tem como temas “sexo interracial, suícidio, dupla penetração entre outros”, o novo trabalho do Xiu Xiu se mostra estranho. Faixas como Black Dick, Archie’s Fades e Lawrance Liquors, momentos bons aqui, abordam esta temática no mínimo curiosa e exalam, mesmo que de forma sintética e obscura, o conteúdo sexual em que inspirou.

No entanto, o disco se mostra extremamente carregado, forçando o ouvinte a aguentar experimentalismos que, independente de sua imersão, são chatos, pesados e desagradáveis. Se levarmos em conta que os locais de gravação, feitos em uma parte barra baseada de Los Angeles – que, nas palavras de Stewart, era “perto de um parque dominado por quatro gangues com um lago com corpos que costumavam surgir boiando e que havia sido descoberto recentemente dois esqueletos humanos” -, podemos ter noção do peso e escuridão que carrega o disco.

Obviamente, se a intenção era transpor tudo que estava sendo sentido e servia de inspiração para o grupo, Angel Gut: Red Classroom cumpre seu papel. No entanto, chega a ser desesperador escutar faixas como a Cinthya’s Unisex e perceber que a naúsea tomou conta de você no meio de sua experiência sonora. Se um sopro de melancolia mais bonita aparece em Bitter Melon ou Botanica Los Angeles, isto ocorre de forma proposital para aliviar o ouvinte de tanta agonia sonora. Certamente é um dos discos mais profundos que eu já ouvi e superá-lo de forma integral é uma conquista. Entretanto, mesmo para os persistentes que quiserem sofrer, não através de lágrimas, mas de medo através da música, o álbum será um momento único, pois revisitá-lo será algo extremamente improvável.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.