Resenhas

Yaeji – WHAT WE DREW 우리가 그려왔던

Trilha propícia para a quarentena, mixtape mescla referências da música eletrônica e domina o poder do silêncio

 665 total views

Ano: 2020
Selo: XL Recordings
# Faixas: 12
Estilos: House, Ambient Music, Minimal
Duração: 38'
Produção: Yaeji

 

Em meio a tanto experimentalismo, distorções, ruídos e caos presentes em novas modalidades de música eletrônica, o artista que consegue trabalhar o silêncio a seu favor certamente tem uma grande vantagem. A difícil missão de se permitir deixar espaços vazios é uma tendência não muito comum entre produtores, quase como se tudo dissesse respeito a espaços preenchidos. Entretanto, no meio de tanto barulho, a produtora e DJ Yaeji prova que é possível trazer inovação para a música eletrônica a partir da exploração destas lacunas.

Nascida em Nova York e filha de sul-coreanos, a artista se destacou a partir da segunda metade da última década, colocando à mesa uma nova forma de se relacionar com a música eletrônica – distante do estereótipo da “fritação” de festivais, e mais inserida no aspecto confessional e de refúgio da música. Seus dois primeiros EPs chamaram a atenção por conta do ecletismo presente nas referências da produtora, contemplando flertes com House, Minimal, Ambient, Techno e até mesmo remixes Hip Hop (a saber, “Passionfruit”, originalmente interpretada por Drake).

Agora, ela lança WHAT WE DREW 우리가 그려왔던, sua primeira mixtape colaborativa, que conta com a participação de nomes em ascensão da música eletrônica –  e que também são seus grandes amigos. Conhecendo a discografia de Yaeji, não faria sentido que sua produção artística se separasse de suas amizades. Em entrevista, a produtora comentou que o senso de comunidade, de pertencer e compartilhar, está diretamente relacionado ao seu amor pela música. Assim, cada faixa do disco é mais do que mero entretenimento: é relação pessoal. A mixtape é um diário de construções conjuntas e, talvez por isso, seja tão natural para nós, ouvintes, sentirmos uma proximidade. É como se o aparente silêncio que permeia os diferentes espaços entre instrumentos e batidas estivesse repleto de histórias e vivências a serem compartilhadas. Vivências de natureza sincera, tal como um diário.

Assim, as diferentes histórias que Yaeji nos conta refletem na costumeira variedade de gêneros explorados em suas obras. É um disco que supre as diferentes demandas dos variados ouvintes que o escutam. Há momentos em que temos composições mais “fritas” e dançantes, porém um dançante propício para ser feito em casa, com seus fones, hobby do qual Yaeji é uma assídua praticante. São os casos de “THE TH1NG”, produção com o DJ londrino Shy One e a artista plástica Victoria Sin, e “WHEN I GROW UP”, flerte com a Grime Music e o Drum ‘N Bass. Há outros momentos em que Yaeji só quer conversar com o ouvinte, em um ambiente mais tranquilo e suave – como em “FREE INTERLUDE”, “THESE DAYS 요즘” e no single “WHAT WE DREW 우리가 그려왔던”, cujo clipe conta com a participação de suas melhores amigas da Coréia do Sul e uma conversa sincera com seu avô.

O trabalho deixa claro que, ao dar mais espaço para Yaeji (em um disco maior), ela ainda assim irá ocupar a sua totalidade de forma calculada e sem exageros. Ela constrói aqui mais uma fração de seu diário, e escutar o que ela tem a dizer é precioso. É um registro que entra na lista de discos propícios para a quarentena, à medida que estabelece uma conversa silenciosa entre a artista e nós. Um diálogo sincero. WHAT WE DREW 우리가 그려왔던 confirma as palavras da produtora em entrevista: “O silêncio vale ouro”.

(WHAT WE DREW 우리가 그려왔던 em uma faixa: “THESE DAYS 요즘“)

 666 total views

BOM PARA QUEM OUVE: yaeji

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.