Resenhas

yes/and – yes/and

Parceria entre Joel Ford e Meg Duffy encontra terreno fértil na Ambient Music para expressar particularidades e, ao mesmo tempo, construir identidade sólida

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Ano: 2021
Selo: Driftless
# Faixas: 10
Estilos: Ambien
Duração: 31'
Produção: Meg Duffy e Joel Ford

O que caracteriza um bom produtor musical? Uma resposta complexa exige diferentes frentes de interpretação. Entre elas, existe uma concepção de que o talento deste profissional tem a ver com a capacidade de ser preciso. Traduzir um pensamento amorfo em uma assinatura musical é o que normalmente chama a atenção de alguns artistas ao selecionarem sua equipe para produzir seus discos. Muitos diriam que essa “tradução precisa” é a área em que o produtor consegue imprimir o seu estilo – até demais às vezes, como muito tem se discutido a respeito da maneira como Jack Antonoff, supostamente, está homogeneizando o Pop. De qualquer forma, passa pelo crivo do produtor essas correlações entre emoções e timbres específicos. Entre arranjos variados e o tom emocional que cada um fornece à composição. É uma tarefa que envolve escolhas minuciosas. Entretanto, para Meg Duffy e Joel Ford tudo isso não passa de uma grande besteira e seu projeto yes/and surge como uma maneira de desmistificar essa ideia de precisão.

A carreira de cada um dos integrantes do projeto é um dos primeiros passos para entender os caminhos que yes/and segue. De um lado temos Joel Ford, produtor musical notório por sua influência no cenário musical Chillwave do começo da década de 2010 – colaborando em projetos com Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e seu projeto Retrowave, Tigercity. Do outro lado, Meg Duffy, uma veterana do Indie Folk que compõe músicas sob o nome de Hand Habits, mas também carrega colaborações com grandes nomes deste cenário – como Perfume Genius e Angel Olsen. Partindo de diferentes gêneros, seria difícil imaginar em qual universo o projeto se estabeleceria, mas, para eles, a solução foi simples e pontual. yes/and é um projeto que encontrou na Ambient Music, elementos pertinentes à área de expertise de ambas as metades do duo. Enquanto Joel possui um currículo invejável com o projeto colaborativo Games, Meg não teve dificuldades em se adaptar às texturas etéreas do gênero – uma vez que seu Folk sempre foi caracterizado por uma introspecção imersiva. É na Ambient Music que o primeiro disco do projeto toma forma e vida.

A construção da sonoridade deste primeiro registro tem uma característica quase ambígua: ao mesmo tempo em que é possível identificar características dos trabalhos solos de cada integrante, também percebemos o disco criar uma personalidade única para este momento. A manipulação extrema de samples, marca registrada do trabalho de Joel, alia-se às guitarras quentes do Folk de Meg. A amálgama dessas características constrói uma sensação de introspecção aliada a processos criativos abruptos e, em alguns momentos, dilacerantes. Como se o duo procurasse a Ambient Music como uma maneira de se aprofundar no aspecto introspectivo, porém não de uma forma escapista e longe dos sentimentos intensos. O disco é confortavelmente desconfortável e isso prende a atenção do ouvinte durante a reprodução das 10 faixas, mantendo sempre uma parcela do sentimento oposto alerta na nossa mente. Se as texturas estão calmas e mansas, há uma camada ao fundo de um som que nos deixa alerta. Se o humor geral é mais caótico, parece que a disforia de vozes forma uma voz uníssona e calma. É na ambiguidade que o sentido é construído.

As primeiras notas de violões ecoados de “Craggy” proporcionam um mergulho vagaroso até o momento em que estamos totalmente cercados dos sons do duo. “More Than Love” traz um lado mais difuso e bombardeado de diferentes samples, sem se preocupar tanto com o aspecto cirúrgico com o qual são cortados os diferentes pedaços de áudio. “Centred Shell” pode levar o ouvinte até mesmo às barreiras de um Math Rock desprovido de ritmo, pela forma como diferentes levadas estão em jogo em um mesmo arranjo. “Melt Away” talvez seja um dos exemplos mais categóricos do disco em mostrar como uma mesma faixa pode funcionar tanto no sentido de isolar as partes de cada integrante, como criar uma sonoridade própria e autêntica do disco. “Emotional Scroll” brinca com os graves fortes da Drone Music, colocando o ouvinte, como o nome do gênero sugere, em estado de transe e imersão. O disco encerra em termos brandos, com acordes abertos em “In My Heaven All Faucets Are Fountains”, semelhante a como esta jornada começou, dando um aspecto de ciclo infinito – apesar de, a cada audição, ser um trabalho completamente diferente.

O disco de yes/and, como muitas obras, ressoa o conceito de obra aberta, de Umberto Eco. Ele diz que, por mais que o autor tenha um objetivo comunicativo, há sempre espaço para que o receptor consiga colocar parte de sua subjetivação e, assim, completar a obra. Portanto, aquela noção do produtor ideal ser preciso, cirúrgico em sua atuação encontra neste trabalho um belo contra-argumento. A parceria de Joel e Meg brilha justamente na imprecisão de suas ferramentas, o que nos autoriza a colocar parte de nós dentro do disco.

(yes/and em uma faixa: “Melt Away”)

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ARTISTA: yes/and

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.