Resenhas

Yoko Ono Plastic Ono Band – Take Me To The Land Of Hell

Trabalho de esposa do falecido Beatle se mostra como um de seus melhores trabalhos, bem produzido e coeso

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Ano: 2013
Selo: Chimera
# Faixas: 13
Estilos: Alternativo
Duração: 42:47
Nota: 4.0
Produção: Yoko Ono, Sean Lennon, Yuka Honda

Yoko Ono já era uma artista de vanguarda quando conheceu um tal de John Winston Lennon. Mesmo casada com o Beatle mais politizado e irônico, ela continuou fiel a esta visão, tanto participando de discos com Lennon, quanto em seus trabalhos nas artes plásticas ou mesmo como cantora. Criticada por grande parte dos fãs do Fab Four como uma das responsáveis pelo fim da banda, Yoko, na verdade, foi de suma importância para John, ajudando a moldar e trazendo foco para muitas das mais celebradas facetas, como a preocupação com a pobreza e a atividade política.

Seus discos são raros e complexos, sobretudo por conta de um estilo próprio e derivado da própria visão universal de arte que ela possui, repito, intacta até hoje, aos 80 anos. Com a ajuda do filho Sean, de amigos como Yuka Honda (Cibo Matto), Keigo Oyamada (Cornelius) e convidados legais como Questlove, Lenny Kravitz, Nels Cline e Andrew Wyatt, Yoko reedita a mítica banda, que já voltar à ativa no disco anterior, Between My Head And Sky, de 2009, para o novo Take Me to the Land of Hell. O resultado é surpreendente e confirma como a visão musical de Yoko, quase sempre subestimada e ridicularizada, mostra-se surpreendemente sintonizada com gente celebrada como Laurie Anderson, Peter Gabriel ou David Byrne, bebendo na encruzilhada entre os ritmos africanos mais percussivos e sua respectiva visão distanciada desses pensadores musicais. A idade talvez tenha tornado a voz de Yoko menos dissonante, a ponto de tornar canções como Little Boy Blue Your Daddy’s Gone, There’s No Goodbye Between Us (com sombras de sonoridades beatle aqui e ali) ou o sensacional funk de Cheshire Cat Cry verdadeiros acertos em cheio no alvo. O aceno total às canções do Talking Heads safra 1980 em 7th Floor e a lírica N.Y Noodle Town também jogam luzes reveladoras sobre o conjunto de canções.

A preocupação com detalhes instrumentais e de arranjo tornam a audição uma excelente pedida para potentes fones de ouvido, mérito que deve ser creditado ao também subestimado Sean Lennon, cada vez mais capaz de lidar com a música em alto nível, talvez muito mais valoroso como produtor que como frontman. O problema maior/traço característico da música feita por Yoko é a aleatoriedade dos vocais, o que ainda permeia fortemente as canções deste disco. Ouvidos menos informados podem desistir no meio do caminho, mas os que resistirem até o fim, terão uma grande recompensa. Talvez seja o mais bem resolvido trabalho de Yoko, o mais palatável, o mais moderno e adequado a uma mulher tão importante como ela.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.