Resenhas

Young Fathers – Dead

Trio continua sua vanguarda sonora em disco sombrio e que reforça a identidade dos rappers

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Ano: 2014
Selo: Anticon
# Faixas: 11
Estilos: Hip Hop, Soul, Afropop
Duração: 34:00
Nota: 4.0
Produção: Young Fathers
SoundCloud: /tracks/130984813
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fdead%2Fid728490547%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

Ouso dizer que estilisticamente não existe nada igual ao Young Fathers atualmente. Já expusemos sua vanguarda sonora anteriormente, mas o lançamento de seu esperado primeiro disco, Dead, acaba apenas consolidando uma série de fatores que nos pareciam inovadores e interessantes nas mixtapes Tape One e Tape Two. A conhecida ferocidade do trio com descendências africana, árabe e europeia aparece em conjunto com as camadas de baixo e elementos sobrepostos – rap lírico com conversas jogadas, percussão tribal e uma obscuridade ímpar. No entanto, é nos vocais cheios de Soul e vida e na aptidão ao Pop que nos vemos sendo capturados pelo grupo.

Curiosamente, apesar do forte apelo às melodias, Dead não é um disco simples e de fácil audição. A tensão expressa através de influências urbanas e de um continente permeado pela violência são sentidas em cada faixa. A percussão e os graves auxiliam a sensação de perigo constante, de morte inevitável, algo que vai crescendo ao longo da obra e a abertura e suas faixas iniciais nos levam a crer que talvez a coléra estivesse escondida, contida. No Way nos coloca no meio de uma tribo desconhecida antes de nos apresentar um refrão viciante. Low, um dos singles lançados, é uma balada com uma excelente melodia como um cântico antigo e histórico e as linhas sintetizadas são a textura que une os vazios que a bela voz deixa aparecer. Seu clipe deixa a experiência ainda mais lisérgica.

No entanto, o trio se apoia na polivalência que a sua formação de três vocalistas permite. Sempre com um som grave que bate no seu ouvido, Raps interagem com ótimos momentos de Soul como em Just Another Bullet ou mesmo War. Esta aliás, tem um início que poderia muito bem colocá-la em um disco do Death Grips, dada a violência dos versos iniciais, até que novamente somos puxados pelo instinto Pop do grupo.

Essa aspereza e escuridão que nos remetem ao grupo de Los Angeles está ainda mais bem definida na feroz Hangman. Como se o seu destino estivesse escrito e o susurro de seu pior inimigo pudesse te dar noção de como você fosse morrer, a canção tem uma letra pesada. “For me revenge is a dish best served cold” e “don’t shoot the messenger, shoot the messenger mother….fucker” são só alguns exemplos. Entretanto, mesmo um refrão com sons de espadadas sendo desferidas não escondem a melodia da banda. A voz parece mais um grito de dor, melódico e belo nesta parte da música.

As texturas de baixo trazem a atmosfera necessária para nos tirar de nossa zona conforto, enquanto após versos rimados ou simplesmente palavras ditas, a melodia surge e nos conquista. Dip é um destes exemplos, podendo ser considerada umas das melhores faixas do trabalho. Melódica, provavelmente será um dos singles mais Pop do grupo, mas sem perder a midtura de estilos pela qual o grupo ficou conhecido. Payman inverte a ordem, trazendo primeiro o lado Soul para depois trazer versos ameaçadores e extremamente humanos. Conseguimos sentir a urgência de palavras que querem nos contar muito mais que uma história, querem nos colocar nela.

Algo que ocorre de maneira excepcional em Mmmh Mmmh, faixa mais cinematógrafica que o trio já produziu. Seu clima bélico e escuro se dá pela sensação de uma transmissão de rádio entre unidades aliadas. Perguntas e afirmativas são propagadas enquanto escutamos em alguns instantes o som de “mmmh mmmh”, conhecida negação onomatopeica. Mesmo com uma letra abstrata que fala sobre supostamente o extermínio de africanos, invasões em baías e a tentativa de um ataque, a faixa consegue nos colocar com os olhos e o coração no imaginário de uma guerra fictícia. Brilhante é a demonstração de que não estamos diante uma banda qualquer.

O maior desafio de um músico talvez seja chegar a um som que possa chamar de seu. Originalidade é uma das chaves do sucesso, mas nem sempre é o bastante para chamar a atenção do público. A vanguarda do som do Young Fathers passa pela união de elementos que parecem sinceros e condizentes com eles.

A abertura de diversos leques faz com que o tribalismo, peso do baixo, vozes melódicas e uma paradoxal combinação entre intensidade e Pop, sejam todos elementos que tornam o trio único, experimental e seguro do que faz. O “rockzinho” de Get Up, o clima Gospel de Am I Not Your Boy ou a balada de encerramento I’ve Arrived estão de acordo com toda a experiência proposta e fazem deste jovem grupo uma pérola a ser acompanhada. A grande questão que fica é: como explorar um som que já parece definido? Seguramente, estes escoceses terão um belo e interessante trabalho daqui pra frente.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.