Resenhas

Young Jesus – Welcome To Conceptual Beach

Com sete faixas espalhadas em quase 50 minutos, novo disco promove experiência sinestésica a partir de aspectos progressivos

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Ano: 2020
Selo: Saddle Creek
# Faixas: 7
Estilos: Post-Rock, Progressivo, Minimal
Duração: 46'
Produção: Marcel Borbón, Kern Haug, John Rossiter e Eric Shevri

Dentre as várias metáforas às quais o processo artístico pode ser comparado, a ideia de “refúgio” aparece com bastante frequência. A composição é vista como uma forma de escapar para um lugar seguro, de variáveis controláveis e alheio a toda realidade. Muitas vezes, também é colocado não como necessariamente um destino final, mas como o processo e o caminho pelos quais se atingem este lugar precioso. Precioso porque, ao localizar o tal refúgio, o local se torna especial e, em grande parte das vezes, sua localização delimitada é um segredo trancado a sete chaves.

Contudo, para John Rossiter, vocalista e guitarrista da banda Young Jesus, o lugar preferido para criar não é algo tão misterioso assim. Na verdade, ele tem uma planta mental bastante específica do terreno e, ao invés de proteger este segredo, ele aproveitou o lançamento de um novo disco da banda para revelá-lo ao público e ainda convidar o ouvinte a se estabelecer no que ele chama de sua “praia conceitual”.

Essa é a premissa do novo disco, Welcome To Conceptual Beach. No texto explicativo do trabalho, o grupo revela a disposição física deste local: “uma costa praieira sozinha, esculpida do continente, sem terra ou água para fazer fronteira, um resquício de possibilidade…”. O prelúdio ao registro propriamente dito convida o ouvinte a conhecer aquilo que moldou a sonoridade aqui contemplada. A descrição física (ou quase) do local é apenas o ponto de partida de uma experiência bastante única e o fato da descrição ser algo aberto a interpretações e, de certa forma, vago, apenas corrobora com as complexas paisagens aqui construídas.

É um trabalho de aspecto progressivo, que não economiza na complexidade dos arranjos e de timbres psicodélicos, envoltos em melodias misteriosas e com uma dose precisa de virtuosismo. Mas, ao mesmo tempo, rejeita a “chatice” e sabe utilizar essas características a fim de promover um escapismo imersivo. Este talvez seja o grande talento do grupo: percorrer diferentes expressões, tomando emprestado referências distintas e proporcionando, entretanto, algo que é intenso e coeso. A construção da sonoridade vai de encontro à definição de John Rossiter: ela é complexa de um ponto de vista semântico, mas, mentalmente, podemos senti-la plenamente – mesmo sem compreender exatamente cada palavra.

A primeira faixa do disco, “Faith”, já nos desconstrói o típico compasso 4/4, colocando belos acordes entre solavancos, em um trabalho cirúrgico de quebra-cabeça. “un(knowing)” é mais branda, mostra um marcante talento vocal, que críticos cunharam como algo entre Thom Yorke e ANOHNI. “Meditations” se aproveita daquele lado místico e psicodélico do Rock Progressivo, cheio de referências a músicas folclóricas indianas e andinas. “Root Crown” é contemplativa, como se estivéssemos olhando para a imensidão da tal praia conceitual, ao som de acordes introspectivos e suaves. Como bons fãs do Progressivo, não poderiam deixar de incluir faixas com mais de 10 minutos de duração, que estão representadas pela quebradiça “Lark” e a cativante e desperta “Magicians” – ambas parecem dialogar entre si em determinados momentos.

Welcome To Conceptual Beach é um trabalho que celebra o processo criativo, mas mais do que isso, convida o ouvinte a senti-lo. A praia que visitamos nesse disco é rica, composta de areias de diferentes cores, pedras de diferentes formas e sons de várias origens. Quem nos guia por este universo de sensações é Young Jesus, que assume um certo papel de messias sinestésico, priorizando mais as sensações do que a compreensão o disco de forma racional.

(Welcome To Conceptual Beach em uma faixa: “Lark”)

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ARTISTA: Young Jesus

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.