Resenhas

Youth Lagoon – Wondrous Bughouse

Trevor Powers encara a disforia e a mortalidade em sua nova incursão psicodélica, que desta vez ganha acompanhamento de uma banda, o que o deixa livre para explorar novas paisagens e sonoridades

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Ano: 2013
Selo: Fat Possum Records
# Faixas: 10
Estilos: Pop Psicodélico, Dream Pop, Neo Psicodélico
Duração: 50:59
Nota: 4.0
Produção: Ben Allen

Quem imaginaria que a revitalização de um gênero tão saturado e reutilizado nos anos 60 e 70, aconteceria de forma tão estrondosa e efervescente como vemos hoje em dia? A Psicodelia, que teve seu ápice nos movimentos hippies entre estas duas décadas, de forma curiosa se revitalizou e popularizou novamente, sendo copiada, transformada e recombinada em um novo estilo que difere de sua gênese, mesmo mantendo em grande parte suas raízes e aspirações. O multi-instrumentista e vocalista Trevor Powers faz parte desse movimento de novos artistas e sob o pseudônimo de Youth Lagoon chega a seu segundo disco, Wondrous Bughouse.

Trevor, assim como em sua estreia The Year Of Hibernation, mostra uma habilidade ímpar em criar paisagens sonoras oníricas que encontram uma grande sensibilidade Pop, mesmo que a priori não as busque. É aquele tipo de sonoridade extremamente fácil de se apegar e aproveitar, mesmo que o seu foco não persiga exatamente tais atributos. Explorando a exuberância e vastidão do Novo Psicodélico, o músico arquiteta dez belas composições imaginativas e contemplativas que te levarão a uma viagem fantasiosa pela tal “bughouse” de Powers (termo pejorativo utilizado para referenciar manicômios e hospícios).

Ao contrário do que acontecia em seu debut, Trevor decide rumar por caminhos mais complexos, não só em questão sonoras, mas também em sua temática que parece se obscurecer ainda mais – ao contrario da solidão absoluta de sua estreia, disforia e morte são temas constantes nesta obra. A simplicidade de outrora dá espaço para faixas incrivelmente melódicas e etéreas que tornam claros seu belo trabalho ao sintetizador, bem como a texturização bem realizada em grande parte de suas faixas. Muito dessa “nova” sonoridade se deve ao fato do projeto assumir neste segundo disco o formato de banda, ao contrario de The Year Of Hibernation, que foi gravado inteiramente por Powers.

Esse crescimento se torna visível em faixas como Attic Doctor, no que se aproxima da psicodelia delicada e quase recreativa que The Beatles alcançou no seminal Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a caleidoscópica Pelican Man e seus sintetizadores em cascata, algo que possivelmente Kevin Barnes faria em seu of Montreal se seguisse uma psicodelia mais austera, e ainda a incrível Dropla e seu mantra musicado. “You’ll never die, you’ll never die” é repetidamente martelada em nossos ouvidos, enquanto Trevor parece relutar a encarar sua própria mortalidade, a tratando de maneira infantil e egoísta (“you weren’t there when I needed”).

Como ponto negativo desta mudança, há certa sensação de confusão sonora, que acaba por deixar a “viagem” menos intensa. Em algumas faixas há tanto acontecendo simultaneamente, que fica difícil para o ouvinte se concentrar. A faixa Third Dystopia exemplifica este confronto de informações, no que parece uma “cacofonia sinestésica”.

Ainda assim, Wondrous Bughouse é um ótimo disco e apresenta uma dicotomia excitante, em que temáticas pesadas concorrem em melodias quase nunca sombrias, como se esses temas as impulsionassem a serem felizes, como se encarar a própria mortalidade e a tristeza, paradoxalmente, nos fizessem feliz. É um tipo de beleza sutil e que, provavelmente, pouca gente consegue se amparar.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts