Resenhas

Yusuf – Tell’Em I’m Gone

Yusuf/Cat Stevens revisita suas raízes musicais e aponta pro futuro

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Ano: 2014
Selo: Sony Legacy
# Faixas: 10
Estilos: Rock, Folk, Blues
Duração: 36:01min
Nota: 4.0
Produção: Rick Rubin, Yusuf Islam

Corria o ano de 1978 quando Cat Stevens decidiu largar a “vida loka” do show business, meio no qual era uma estrela com carreira consolidada, para converter-se ao islamismo. Tal movimento foi chocante para seus fãs, que viram o ídolo de 30 anos incompletos sumir num exílio voluntário e sem qualquer previsão de retorno. De fato, Stevens demorou 28 anos para gravar um novo álbum de canções Pop inéditas. Quando o fez, em 2006, lançando o An Other Cup, já assinava suas canções com o nome muçulmano que adotara, Yusuf Islam. Mesmo tendo gravado alguns trabalhos isolados e religiosos durante o período de autoexílio, Yusuf retornava com a mesma abordagem Folk e espiritual que fizera dele um astro da música. Retornou em 2009 (com Roadslinger) e retorna com Tell’Em I’m Gone.

Os trabalhos pós-2006 de Yusuf talvez sejam inferiores a seus clássicos do início dos anos 1970 mas guardam (entre si e em relação aos melhores discos de sua carreira) uma integridade absurda, uma capacidade rara de transmitir sentimentos e sinceridade. É como se ele fosse um contador de histórias, um filósofo de rua, um padre sem batina ou celibato. É só um homem comum, mas nunca banal, mundano, rasteiro. Mesmo assim, Yusuf decidiu gravar um álbum em que busca reconectar-se com suas origens musicais, contidas na apreciação do Blues e do R&B iniciais. Era “música suja”, “profana”, “incorreta” em sua origem, os puritanos Estados Unidos, mas caiu como uma bomba no Reino Unido, que mostrou-se muito mais capaz de apreciar tal mistureba. Yusuf, nascido em 1948, adolescente na Beatlemania, era mais um desses fãs da música negra americana. Deu no que deu.

Com a co-produção de Rick Rubin, que se tornou mestre em dar apimentadas estéticas em carreiras de astros (como Johnny Cash e Neil Diamond), Tell’Em I’m Gone é um prato cheio para quem aprecia Blues e R&B bem executados, com sujeira necessária e no ponto, além de poder ouvir o que Yusuf tem de melhor e mais marcante: sua voz. Com seis canções originais e quatro covers, o álbum flui tranquilo. Há grandes acertos em ambos os setores: Doors, a canção que encerra o álbum, é uma pequena jóia espiritual, com o verso matador logo de cara When a door is closed somewhere there’s a door that’s opening, mostrando que o sujeito não perdeu sua aura de caminhante das estradas da vida, encapsulando toda uma filosofia de tolerância e paz em uma frase com jogo de palavras. Também no setor das inéditas, Editing Floor Blues chega autobiográfica, com as credenciais logo apresentadas I was born on the West End in the summer of 48, mostrando seus primeiros contatos com a música e, por consequência, com a vida. O instrumental obtido por Rubin e a banda tuareg Tinariwen, é mais pesado que tudo já gravado por Yusuf desde sempre. O gaitista americano Charlie Musselwhite também ilumina a gravação.

No terreno das covers, há destaques singelos. A versão luminosa para Dying To Live, de Edgar Winter, safra 1971, logo salta aos ouvidos, toda levada ao piano, com letra de final feliz. O sucesso do grupo inglês Procol Harum, The Devil Came From Kansas, também é destaque, com peso, guitarras distorcidas e tudo a que tem direito. You Are My Sunshine, standard da canção americana, famosa por versões de Ray Charles e Joe Cocker, chega completamente revigorada com o arranjo e vocais de Yusuf, que opta por não seguir a melodia original no refrão, privando a canção de sua aura quase infantil de tão ingênua. Big Boss Man, famosa na voz de Jimmy Reed também se mostra pesada e afiada.

Cheio de momentos iluminados e sinceridade, Tell’Em I’m Gone é um álbum diferente dentro do cânon de Yusuf, com um vigor e uma vontade enormes de tornar a música sinônimo de memória, presente, futuro e inspiração para quem grava, para quem produz e, sobretudo, para quem a ouve. Ele segue fazendo sua “healing music”, ou seja, aquela sonoridade quase terapêutica, cada vez mais necessária hoje em dia. Reveja este novo/velho trovador.

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BOM PARA QUEM OUVE: Ryan Adams, Neil Young, Fleet Foxes
MARCADORES: Blues, Folk, Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.