Resenhas

Yves Tumor – Heaven to a Tortured Mind

Escorado em grooves quentes e andamentos mais empolgantes, produtor americano continua criando um universo único

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Ano: 2020
Selo: Warp
# Faixas: 12
Estilos: Experimental, Glam
Duração: 36’
Produção: Justin Raisen

Quando Safe in the Hands of Love (2018) veio ao mundo, muitos ouvidos voltaram-se para a figura do jovem produtor americano Yves Tumor. Por meio de sua música disruptiva, mas antenada às tendências de vanguarda da Música Eletrônica, o artista era uma espécie de promessa relacionada a um novo estilo musical – ainda, contudo, em estágio potencial. Agora, Heaven to a Tortured Mind, o seu segundo trabalho sob a tutela do selo Warp, expande o alcance do artista, tornando sua música mais acessível, mas sem abrir mão de idiossincrasias instrumentais que o fizeram tão interessante para começo de conversa.

“Gospel for New Century”, a faixa de abertura, chega estroboscópica e violenta como se fosse a trilha sonora de um filme de Exploitation. Com notas pontiagudas e cheias de groove que tocam em loop, Tumor sobe a temperatura em relação ao seu trabalho antecessor. Aqui, as batidas industrializadas cedem mais espaço para samples de Funk, de Glam e de Hard Rock, colocando o artista como uma transmutação de Prince e David Bowie do novo século.

Antes, Yves Tumor cativava pela estranheza, pelo enigma da melancolia, pela incitação do desejo de saber mais. Aqui, com uma atmosfera muito mais expansiva e sexual, ele mantém o clima visceral e a atitude desafiadora com músicas embaladas por andamentos mais empolgantes. Temas religiosos continuam a sublinhar sua atitude iconoclasta, agora contrastante com letras de teor mais sexual.

Há dois anos, quando escrevi sobre o disco anterior, disse: “Yves Tumor faz música ou performance? Constrói estados emocionais ou narrativas? Sua visão de mundo é introvertida ou reflete o cosmopolitismo do século 21? Todas as anteriores, provavelmente”. Hoje, é mais claro perceber que a comunhão entre os opostos continua a ser a característica mais marcante do artista.

É interessante notar, por exemplo, como o clipe de “Gospel for a New Century” mostra Yves e algumas dançarinas como criaturas monstruosas. Faz sentido pensar na acepção clássica da figura do “monstro”, isto é, a de uma criatura cujo corpo resulta da mistura de outras duas ou mais. Dentro de seu universo fantástico e misterioso, Yves Tumor é um fauno ou alguma criatura diabólica: seja através do seu próprio corpo, dos temas que escolhe amalgamar em seus versos, ou mesmo nos estilos musicais que colapsam em uma coisa só, ele continua a criar um universo só seu.

(Heaven to a Tortured Mind em uma faixa: “Gospel for a New Century”)

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ARTISTA: Yves Tumor

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.