MPB se tornou um título guarda-chuva para uma série de manifestações musicais que tinham como principal ponto em comum serem feitas por brasileiros – a partir de linguagens profundamente brasileiras. Mais do que uma fundamentação em ritmos, timbres, assuntos ou uma delimitação temporal, a MPB representa uma miríade de possibilidades, representa a união, fusão e recombinação do que nos torna um povo. Zé Ibarra se torna uma figura interessante na continuação desse legado da Música Popular Brasileira exatamente por exercitar muitas das possibilidades que a sigla permite. Seu mais recente disco, AFIM, é um ótimo exemplo de como o legado de artistas gigantescos da nossa cultura continua ecoando em nossos dias.
Sempre inquieto, o músico já experimentou com a MPB em diferentes projetos, como Dônica e Bala Desejo, além de testar sonoridades em seu projeto solo. Lançado em 2023, Marquês 256. trazia uma abordagem bastante diferente do que já havíamos ouvido dele, com uma sonoridade mais contida e solitária. Vindo de um artista que sempre foi marcado pelas colaborações, esse disco mostrava uma faceta mais intimista num registro cru, marcado pela melancolia do formato voz & violão. Já em seu novo registro, o repertório volta a ser trazido à vida com a ajuda de colaboradores, com arranjos mais densos e musicalidade mais rica.
E talvez essa seja a maior força do disco: ser feito a diversas mãos. Zé orquestra ao lado do coprodutor Lucas Nunes um time de peso; são nomes como Alberto Continentino no baixo, Daniel Conceição e Thomas Harres na bateria e percussão, Rodrigo Pacato nas percussões adicionais, Chico Lira no Fender Rhodes e Guilherme Lirio na guitarra. O resultado é sofisticado, intenso e cinematográfico. O músico ainda reinterpreta canções de nomes como Sophia Chablau, Maria Beraldo, Tom Veloso e Ítalo França, dando não só uma nova roupagem, como um novo significado para algumas das canções.
Por mais que parte das letras não sejam da autoria de Ibarra, o repertório carrega um astral confessional. E está aí mais um dos pontos fortes da obra: fazer essas composições soarem como de Zé Ibarra. Temas como amor, desejo, perda, identidade e vulnerabilidade são elaborados na voz de Zé, por vezes subvertendo eu lírico original da músicas, casos de “Segredo” (de Sophia Chablau) e “Da Menor Importância” (de Maria Beraldo), que têm seus significados reinventados. Em vez de apenas interpretar essas faixas, Zé encarna personagens numa performance fluida e com um vocal que borra limites entre cantor, intérprete e persona.
AFIM reafirma Zé Ibarra como um dos nomes mais interessantes de sua geração. Mesmo ancorado nas tradições da MPB, o disco não se acomoda nelas, mas as transforma em ponto de partida para explorar outras margens. É um trabalho que soa, acima de tudo, brasileiro. Não por recorrer a clichês ou fórmulas, mas por absorver influências diversas e devolvê-las em uma linguagem própria, sensível e inquieta. Zé parece entender a Música Popular Brasileira como campo aberto – e, aqui, ele caminha por esse território com liberdade, elegância e imaginação.
(AFIM em uma faixa: “Transe”)
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