All Folks Fest 6

Novo formato do festival levou bons shows ao palco, mas observou sua proposta se diluir

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Nota: 3.5

Me perguntaram na semana passada como eu fui parar na discotecagem da sexta edição do All Folks Fest e minha resposta foi curta e simples: Estava lá desde o primeiro, fui me envolvendo cada vez mais e pronto. Enquanto eu via tudo acontecer nesse último sábado, 22 de março, ali no cantinho do palco, pensei melhor em toda essa história, o que acabou me fazendo compreender melhor como foi a noite.

Que esta noite seria diferente, disso ninguém tinha dúvidas. Após cinco edições no Centro Cultural Rio Verde (uma mistura de teatro com casa de fazenda e bar ao ar livre (com direito a coreto) na Vila Madalena/Pinheiros, o AFF desembarcou sua caravana na casa de shows Da Leoni no Baixo Augusta. Ao invés do espaço externo que servia para a convivência entre os shows, agora tudo acontecia em um só ambiente – daí a discotecagem ter uma participação mais ativa na noite.

Não só isso, ao invés de quatro ou mais bandas que se alternavam pelos palcos, agora tínhamos apenas duas em shows completos e a participação da inédita White Cats dando as boas vindas ao festival em plena Rua Augusta para quem passava por ali. Uma quantidade maior de músicos em um local próprio para se sentar e tomar uma cerveja, como tínhamos antes, não só gerou várias parcerias (os mais atentos na “cena” sabem bem disso), mas dava uma cara mais “amigável” ao evento como um todo. Meio ponto de encontro de velhos conhecidos, meio local pra fazer novas amizades. Foi assim que acabei encontrando pessoas, músicos ou não, com quem marquei mais festas, bares e idas a shows nos últimos anos.

Convenhamos, o ambiente de balada não é o mais propício pra sentar e conversar. Sim, dá pra conhecer gente, mas a apreciação da música naquele volume em uma sala com uma iluminação pensada para a dança é bem diferente da experiência de All Folks Fest que todos conhecíamos. O número menor de apresentações (algo que faz muito sentido, visto que demandaria maior logística e duração do evento) acabou prejudicando muito o conceito amigável do festival ao criar acidentalmente a impressão de “headliner” e banda de abertura”.

Sim, Capela se apresentou por último e uma boa parte das pessoas ali era de fãs do grupo (algo que aconteceu em todas as outras edições do evento), mas, infelizmente, a postura de todos ali não era a de um festival – inclusive da banda. “Bem vindos!” disse o vocalista após a primeira música (tocada após um vídeo de introdução um pouquinho longo demais), se esquecendo que a maioria já estava lá há horas.

A banda faz um som bem “espetacular”, no sentido mais radical da palavra. É um Pop romântico expansivo, que tem no Folk a alma de violões inquietos e letras confessionais e na MPB, sua herança bem carregada. A conexão com o público é daquelas muito bonitas de se ver, com pessoas emocionadas cantando bem alto com as mãos para cima, claramente entoando versos sobre elas mesmas. Contudo, foi a hora que muita gente que estava lá desde o começo ir embora. Talvez por tudo ser grandioso demais, talvez pelo clima que ficou de estar em um show com fãs, não em um festival como era antes.

Antes disso, Lestics mostrou músicas do novo disco, Seis (que sairá em breve), mescladas com faixas de lançamentos anteriores e uma nova formação da banda – sem teclados, mas com aquela poesia certeira de sempre. Foi bonito, com gente cantando junto também, naquela singeleza de deixar a música ganhar seu impacto sem artifícios, apenas por sua força natural. Pelo visto, é o que podemos esperar deste próximo EP, felizmente.

Lestics era uma das atrações do primeiro All Folks Fest, em novembro de 2011 e figurinha carimbada nas edições seguintes, então sei que os músicos vão entender o que eu quero dizer que da outra vez, ou em qualquer outra, não tínhamos headliners bem definidos, muito menos uma banda com a impressão de estar ali para abrir para a próxima. Entendo perfeitamente que não era essa a intenção da produção, mas foi a dinâmica que acabou acontecendo no sábado.

Ainda nas comparações com o antes e o agora, a lembrança que eu e muitos que conheço temos do festival era de algo intimista. Dessa vez, o ambiente era quase intimidador. Não era o escuro da balada, mas a falta de conexão entre as pessoas: Era claro ver quem estava lá para o evento como um todo e quem foi para ver apenas um show, como costuma acontecer na maioria dos festivais.

Entenda: O saldo foi (muito) positivo, com públicos das duas bandas satisfeitos com os shows (mesmo com a pena que foi não termos White Cats no palco, uma ideia que surgiu ali de improviso, por motivos técnicos). Mas, quanto mais vou em eventos musicais, mais entendo que um festival não é feito apenas pela qualidade das bandas e de suas performances. Se essa tivesse sido a primeira edição, eu teria passado esse tempo contando como foi legal ter a dupla tocando na porta, depois ver Lestics na abertura e Capela fechar a noite, só shows bonitos. Em uma sexta noite com esse nome, faltou parte daquela personalidade que já vi cinco vezes antes.

O que me traz de volta à questão inicial. Fui parar na discotecagem do All Folks Fest pelos ideais que temos em comum de promover a música autoral e um encontro entre as pessoas que admiram e/ou produzem dentro de vertentes do estilo – algo menos comum do que se imagina mesmo em uma cidade como São Paulo. Após ter curtido demais quatro edições e ter sobrevivido muito doente uma outra (veja bem, não conseguiria deixar de ir), sei que a noite do dia 22 também deu muito certo, como suas antecessoras, e fico muito feliz de ter feito parte dela e já não vejo a hora do próximo (irei mesmo morrendo de dor, como já aconteceu antes).

A escolha de um novo local foi válida (mudar faz bem, experimentar faz bem) e a postura das bandas e do público é imprevisível. Então, a sétima edição pode ser onde for e ter o line up que quiser e terá tudo pra ser boa novamente, porém (por menos saudosista que eu seja), fica a esperança de uma postura de músicos e público tão amigável quanto a de outrora.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.