Bananada 16ª edição – Centro Cultural Oscar Niemeyer, GO

Mais de 30 atrações pisaram nos dois palcos de um dos festivais mais importantes do país

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Fotos: Pedro Margherito
Nota: 4.5

Uma semana que serviu como a reunião daqueles que amam música, amam artes visuais, dão rolê em skate e não perdem tempo para experimentar uma boa comida. A 16ª edição do Bananada, festival tradicional de Rock na capital goiana, um dos mais importantes do país, teve uma roupagem diferente que beirou as cinco estrelas que avaliamos aqui. Convenhamos que o acesso ao Centro Cultural Oscar Niemeyer era bem difícil, uma fila interminável para chegada ao estacionamento, e depois outra enorme do público à bilheteria, mas a sensação de quando entrava é que estávamos diante de algo sério, com selo “festival gringo” de qualidade.

O que dava mais esse ar de festival de música, com certeza, era o local. Praqueles que não conhecem, o Centro Cultural Oscar Niemeyer, embargado por muito tempo, começou, nos últimos meses, a servir como cenário de eventos diversos em Goiânia. Ele é composto pela Esplanada da Cultura, praça de 26 mil metros quadrados, destinada a exposições, apresentações artísticas, eventos e shows, constrastando bem bacana com o gigante triângulo vermelho do Monumento aos Direitos Humanos, a Biblioteca e o Museu de Arte Contemporânea. No meio disso, o Palco Principal, o Alternativo, uma pista de Skate enorme, um espaço destinado à venda de roupas, bijouterias, CDs, vinis, bandanas e afins, e outro com oito dos melhores restaurantes e lanchonetes de Goiânia. Tudo muito organizado e respeitoso. Um daqueles ambientes que se é possível ver todas as tribos, pais com seus filhos, jovens e seus cachorros, e skate para todo lado.

Foram sete dias que rechearam a capital com uma programação completa e pontualidade surpreendente. Desde cardápios exclusivos em restaurantes, quanto bandas fazendo esquenta em casas noturnas. O público também podia escolher a quantia a ser paga por cada dia de festival. O “Quanto Vale o Show” dá essa liberdade ao pagante, estipulando como mínimo a entrada no Bananada nas Casas e Esquenta de 5 reais, já para final de semana no CCON, 10 reais. O que muitos poderiam pensar que levaram vantagem no baixo valor, fica como uma oportunidade de pagar ainda mais para prestigiar e dar mais força praqueles que se movimentam para tornar Goiânia a capital do Rock e responsável por grandes nomes na indústria.

A sexta-feira tinha um grande chamariz. O Bananada fazia parte da turnê do selo Sub Pop no Brasil, que havia acabado de sair de uma apresentação coberta por nós do Monkeybuzz, em São Paulo. The Obits, Metz e Mudhoney mostraram bem todo o gás e juventude (nem sempre no RG) em sua música. Pra começar, os primeiros citados demonstraram a maturidade daqueles que fizeram história nos anos 90. O quarteto estava entusiasmado em pisar em solo goianiense e davam jus a vocais gritados e uma bateria completamente engajada e judiada. Apesar do semblante mais linear de Rick Fork, o show foi potente e enérgico, repleto de agressividade nos riffs e no timbre da voz do vocalista. Obits presenteou o público ainda tímido, mas fiel, com um repertório mais recente, fruto do mais recente álbum da banda, Bed & Bugs.

As pessoas ainda estavam se acomodando no festival e bastante à vontade, inclusive, para ouvir coisas novas. E no meio desse montante de novos sons, cheguei a ver a abertura do show de Papier Tigre. Um baterista marcante, um vocalista/guitarrista com timbre forte e um percussionista/guitarrista concentrado. Ao início mais parecia uma banda experimental, que lembrava a jovialidade de um tUne Yards menos eletrônico e mais roqueiro. Não consegui mais sair do lugar, estava vidrado na maturidade dos três. Oito anos de estrada e já pareciam ser feitos para festivais. Mesclavam muitos conhecimentos técnicos de instrumentos, por isso o vocal geralmente era deixado de lado e todos os esforços vinham em prol daquele Indie Rock. Foi a segunda vez de Papier Tigre em Goiânia e, depois de poucos minutos, tive a resposta de estarem de volta em tão pouco tempo. Na minha opinião, uma banda que funciona muito mais ao vivo do que no registro. Ainda quero ouvir esses riffs reverberados novamente.

Em seguida, vinha METZ. Os canadenses estavam na cidade pela primeira vez e já contou com uma tenda mais cheia. O público que esperava era notavelmente mais velho e estava ali para relembrar aquele Punk que fez história. E não demorou. O barulho veio de cara e serviu como um som cáustico em todos os presentes. Alex Edkins não poupou garganta e nem Chris Slorach economizou na euforia. Enquanto Menzies parecia afundar a bateria, o público ainda se comportava mais enérgico do que a própria banda. Muito aplauso em faixas como Headache, Wet Blanket e Negative Space e surpresa quando o show acabou. A grade, cheia de fãs mais velhos, cantando e batendo cabeça, não queria aceitar o tempo curto de apresentação. Mas uma coisa era certa, todos estavam estasiados com a viagem ao gênero que METZ proporcionou.

Em meio a trabalhos de ilustração com o coletivo Bicicleta sem Freio e seus trabalhos ovacionados no Centro-Oeste com Tatuagem, Victor Rocha e os comparsas de Black Drawing Chalks arrumaram tempo para marcar presença e animar o pessoal da sexta. O show foi repleto de hits (Big Deal, Favorite Way, My Radio) assim como faixas do mais recente trabalho, No Dust Stuck On You. O público prestigiou todas as bandas que sairam de Goiânia para o mundo, demonstraram o orgulho em forma de presença massiva nos palcos. Logo em seguida, os macacos velhos do grupo Mudhoney subiram no palco principal e soltou uma pancada de hits que permearam os 25 anos de carreira do grupo. Suck You Dry, Retribution e Rage arrancaram gritos da plateia e encerraram o primeiro dia do festival.

O sábado começou com agradáveis surpresas. O show talentoso dos goianos do Shotgun Wives e Luziluzia, e o duo paulistano Inky que fez uma atmosfera à la Chromeo para o CCON. Mas, com certeza, o ponto alto (e com som bastante agudo) foi com Aldo, que demonstrou uma versatibilidade muito grande em instrumentos, um vocalista completamente ensandecido, prancha de samplers e muito reverb. Quem nem sabia que quem se tratava, parou para ouvir o show e correr nas bancas para garantir um dos poucos CDs que ainda restavam. Em seguida, tivemos um show divertido do saudoso Indie Rock noventista do Bidê ou Balde e o escandaloso Carlinhos Carneiro.

E para fechar a noite de sábado, o grupo goiano do momento se apresentou diante de um palco lotadíssimo. Boogarins, que se apresentou já nesse ano no Festival Vaca Amarela, demonstrou muito mais maturidade. Depois de recente turnê por festivais de Rock Psicodelico pelos EUA, Benke e seus amigos já se portam com segurança e presença de palco. Dinho Almeida nem conseguiu falar durante o show de tão perplexo com todo CCON lotado com olhos vidrados em sua banda. O repertório passeou bastante pelo álbum de estreia e, dessa vez, muitas pessoas acompanhavam as faixas cantando suas letras através de um som limpo, diferente do ano anterior. Com certeza o melhor show de sábado. Depois disso, no palco 1 veio, mais uma vez, Móveis Coloniais de Acaju. Uma escolha tão previsível que prefiro pensar que foi mais pela certeza de segurar o público até mais tarde do que pela proposta de inovação. Os goianienses bem sabem que todo ano vão cruzar com Móveis no headline dos festivais. A banda candanga (e bota banda nisso, vários integrantes que mal cabiam no palco principal) agitou aqueles que ficaram até mais tarde, mas a fórmula tá mais que clara que não surpreende.

O domingo foi marcado pelas bandas mais pesadas da cena, o Hardcore veio com força. Os destaques da noite vieram para o imponente show da banda portuguesa The Legendary Tigerman, a potência ritmada e agressiva de Far From Alaska e os goianos Hellbenders. No palco principal, quem fez as vezes dos holofotes foi o Hip Hop. Horas antes, durante a tarde, tive a oportunidade de acompanhar as gravações do RockLab e antecipar o que Emicida e Rael fizeram no fim da noite. Cansados da gig do dia anterior, a dupla chegou ao estúdio com pressa de fazer a entrevista e a session. Nesse meio-tempo, Emicida percebeu o saudoso som de Miles Davis que tocava e deu uma aula de Blues contando um pouco sobre a história do Festival de Jazz de Montreal. Desde cedo, o rapper já se mostrava entusiasmado com a organização do festival, comparando o Bananada com os festivais gringos que passou. À noite, não foi diferente. Quando as baterias foram substituídas pelas pick-ups, o público foi à loucura, e parecia que ali nunca tinha sido palco dos sons mais pesados do final de semana. O primeiro iniciou com Ainda bem e ainda veio com as esperadas Caminho e Coração. Emicida veio pra arrancar gritos e mostrou porque era atração principal de domingo. O desfecho do festival veio em grande estilo com frases rimadas de impacto e hits desde o início da carreira, mas, claro, o ponto alto foi para Levanta e Anda e Hoje Cedo.

Todos os anos somos, nós goianos, presenteados com uma série de eventos bacanas, promovendo a boa música, a arte de rua, de tatuagem, e dando muita força para as novas e veteranas bandas. Sempre funcionou como uma grande celebração e uma forma de reunir os velhos amigos, tomar aquela cerveja gelada e curtir um bom som, dando aquela impressão de “se sentir em casa”. Neste ano, Fabrício Nobre (produtor responsável pelo evento) e sua turma levaram o Bananada para outro nível. Escalaram as melhores boates, restaurantes, lanchonetes e bares da cidade para dar doses do festival durante a semana, e, como a tradição, deram uma opção a mais praqueles que não têm o clichê sangue sertanejo de Goiás e não queriam ir à Pecuária. E fizeram direito. Corre a boataria que muitos dos festivais que aconteciam aqui pairavam sob a imaturidade de adolescentes querendo ter seu espaço e, por isso, todo dia brotava uma banda. E nessa caça de “bandas sem músicos de verdade” se formavam alguns eventos menores. O Bananada mostrou que isso é passado. A curadoria de música foi muito séria e pesquisou bastante para escolher a dedo os projetos mais interessantes para expor. Desde o Post-Punk ao Indie Eletrônico. Determinado momento, me via satisfeito por ter a oportunidade de conhecer tanta coisa nova e boa.

Escolheram uma localização adequada e esteticamente ideal para se misturar cultura e música. Souberam dispor o local de uma forma em que os diversos públicos pudessem se encontrar e comunicar, seja do Rock, do Hip Hop, do Psicodélico, dos skatistas ou até dos perdidos. Bananada não veio pra tocar música. Em 2014, o festival veio para ser uma experiência ao público, de contato com a cultura por si só e tudo que ela engloba. E fizeram com maestria. Bananada realmente se destacou e eventos como esse que firmam ainda mais Goiânia como um dos maiores polos de exportação de bandas para o mundo.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King