Bixiga 70 no Nave Groove

A Banda mostrou, durante show em São Paulo, que uma música instrumental pode valer muito mais do que mil palavras

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Fotos: Rone Bento
Nota: 4.0

Caprichosamente localizado no número 70 da Rua Treze de Maio, 10 músicos que tocavam no estúdio Traquitana formariam o Bixiga 70. Coincidência ou não, a banda que toca “música instrumental” mas com influências dos sons provenientes da Africa, Brasil e América Latina, tem o mesmo 70 da banda seminal que acompanhava Fela Kuti em shows e gravações, o Africa 70. Tocando Afrobeat instrumentado, o grupo prova que vozes e letras são consequências dentro da música, e nem um pouco necessárias para que música transpire sentimentos.

No último sábado, a banda tocou na festa Nave Groove, que reúne a cada dois meses uma seleção finamente curada de DJs e atos ao vivo. Escolher um gênero para o evento é meio ambíguo e difícil, mas pode-se dizer que toca-se Funk (de verdade), Soul, Jazz e Groove. É normal ir a essa festa e se deparar com uma Jam Session sensacional, passar por alguns ambientes sem se preocupar com a queda da qualidade da música e, acima de tudo, não parar um minuto. Ou seja, um ambiente perfeito para uma banda que propõe a todos que dancem desde a primeira música.

Acho que quem já leu algumas resenhas feita por mim, sabe a minha grande queda por instrumentos de sopro. Na minha opinião, são eles que realmente conseguem orquestrar uma música, trazendo à tona uma série de sentimentos e muita intensidade, além de cairem exatamente no ponto “melodia x letra” que permeia a música desde sempre. O que é mais importante? A letra é feita pra transmitir ideias, pensamentos e sentimentos, o que é essencialmente a função histórica da música. Ela vem, na maioria da vezes, como um complemento ao ritmo, necessário em alguns casos e em outros não. A melodia, raiz da composição, consegue seguir sozinha independente do amparo lírico.

Escutar Grito de Paz ao vivo, música do primeiro CD da banda, traz uma sensação de alívio, quebra de angústia igual ao ato de gritar por paz. Ver os dez músicos fazendo o som extremamente trabalhado no LP soar perfeitamente ao vivo é impressionante. No show, estavam lá Tema di Maleka, com um riff de guitarra funky sendo puxado depois pelo sopro, Mancaleone, a mais dançante, com um ritmo que convida o ouvinte a chamar uma pessoa pra dançar e rodopiar junto, e Desengano da Vista, a mais intensa – carregada e toda orquestrada, a música cresce aos poucos, até gritar e depois voltar ao clima calmo. Oscila, com o trompete puxando os tons lá pra baixo, pra depois ir delicadamente soprando e encontrar no meio o sax, trombone e criar um clima de volta por cima. Sem dizer nada, a música transmite segurança.

O show teria ainda um cover do Budos Band, banda instrumental de Afro-Soul e totalmente recomendável se você aprecia o Bixiga. Passando por quase todo set do LP deles, tivemos ainda como destaque o ato de Luz Vermelha com seu teclado levando o ritmo e os sopros extravasando. Balboa da Silva acaba o show e coloca todos de volta na batalha da vida – o que, nesse caso e dia, seria voltar e escutar mais música boa sendo tocada no lugar. Nada mal.

Sem dizer uma palavra sequer, simplesmente pelo ritmo, o Bixiga 70 ao vivo consegue mudar o famoso ditado “uma imagem vale mais do mil palavras” para “uma música instrumental vale mais do que mil palavras”. Esse é o grande trunfo do trabalho da banda, e que ao vivo se torna ainda mais impressionante por transparecer tudo aquilo que não preciso ser dito, mas somente sentido. Uma ótima – e brasileira – banda.

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ARTISTA: Bixiga 70
MARCADORES: Nave Groove

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.