Boogarins + Jair Naves – Beco 203, SP

Goianos psicodélicos e o paulista inquieto preenchem noite com shows autênticos e díspares

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Fotos: Fernando Galassi/Monkeybuzz
Nota: 4.5

Depois de estar à luz dos holofotes da imprensa (nacional e internacional), com o lançamento de seu disco de estreia, As Plantas que Curam, o quarteto goiano Boogarins tinha de se provar mais que um simples hype, agora sob as luzes dos palcos. Em uma missão que muitas bandas não conseguem êxito, o coletivo demonstrou incrível maestria e, em pouco mais de 40 minutos, mostrou ao público paulistano à que veio.

Em um show eficaz e potente – com figuras importantes do jornalismo brasileiro na plateia, como Lucio Ribeiro (redator da Folha e curador do Popload), Pablo Miyazawa (editor da Rolling Stone Brasil) e Marcelo Costa (editor do Scream & Yell) -, os quatro músicos mostravam perfeito entrosamento (não transparecendo que ainda não tocam juntos há nem um ano) e mostraram que toda a atenção que vem recebendo atualmente é fruto de seu talento.

Alongando as faixas vistas do álbum (com jams e improvisos), a banda parecia colocar ainda mais peso em suas músicas, suavizadas por uma produção certeira em estúdio. Além de mais volume, as canções ganhavam corpo sob os alicerces do Blues Rock, porém sempre guiadas pela lisergia setentista. Estendendo um disco de pouco mais de meia hora em um show de 40 minutos, o grupo ganhou alguns minutinhos (e público) com ótimos solos e saídas imaginativas ao que é ouvido no disco.

Mostrando seu novo repertório, o quarteto parecia bem confortável em cima do palco. Logo no começo do show, uma corda da guitarra de Benke estourou e, contornado o problema rapidamente, a apresentação seguiu sem mais nenhuma adversidade. Em muitos momentos, se via que a banda estava ali aproveitando cada momento e que principalmente o vocalista e guitarrista Fernando estava curtindo muito – cantando, dançando e fazendo movimentos com a guitarra à la Pete Townshend.

Poucos minutos após os goianos é que o paulistano Jair Naves se porta no palco sem enrolar, abrindo com um ligeiro “Boa Noite!” e emendando logo de cara a faixa Pronto Pra Morrer (O Poder de Uma Mentira Dita Mil Vezes). O ambiente, que permanecia um pouco menos cheio, seguia com olhos atentos a performance do incessante músico de caráter tímido na maior parte do tempo.

O interessante a se destacar no recente show de Jair é a diferença que pode ser notada nos arranjos e na estrutura geral das músicas de E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando Sua Fuga, Cavando o Chão Com As Próprias Unhas, já mais amadurecido desde seu lançamento e direcionado ao público – enviezado para uma performance mais rocker e menos reclusa e emocionada como vista em alguns teatros do SESC, Naves consegue fazer reacender a memória de um Ian Curtis mais vivaz, que entre os graves que permeiam por canções como Covil De Cobras e Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu também reverbera a atitude voraz que quebra ao meio as primeiras impressões causadas ou até mesmo ao conversar do próprio.

Entre elogios a Goiânia e críticas pontuais sobre a especulação mobiliária na Rua Augusta, lugar que sempre viveu, Naves discorreu o restante das músicas a preencher seu primeiro álbum de estúdio, como a firme No Fim Da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas e outras que ficaram de fora desse registro – a derradeira De Branquidão Hospitalar, Queimando Em Febre, Eu Me Apaixonei e Um Passo Por Vez, fruto de um clipe lançado em 2011, fechando a noite com a sensação de dever cumprido antes mesmo da meia-noite.

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Autor:

Jornalista por formação, fotógrafo sazonal e aventureiro no design gráfico.