Câmera – Casa do Mancha, SP

Banda mineira apresenta seu primeiro disco em rica apresentação

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Nota: 4.5

No último sábado, na Casa do Mancha, tivemos a chancer de ver a segunda apresentação completa da banda Câmera em terras paulistanas, novamente no mesmo lugar, mas em circustâncias distintas. Recentemente, o quinteto mineiro de Belo Horizonte lançou o elogiado Mountain Tops, delicioso disco de Rock Alternativo com influências diversas, mas original e extremamente agrádavel de ser ouvido. Na verdade, elogiar apenas seu último lançamento é esquecer o que grupo vem fazendo nos últimos anos – o EP, Not Tourist permanece entre os meus favoritos, assim como a sua belíssima estreía, Invisibles Houses. Logo, ver o grupo se tornou uma obrigação para nós, entender se o processo de gravação e exibição não se perderia na metade do caminho, e que alegria é pode afirmar que seu poder ao vivo é elevado a outros patamares.

Listado dentro do portfólio do abrangente e importante selo brasileiro Balaclava Records, a exibição parecia ser a mais esperada da noite – antes dos mineiros, os americanos de Avan Lava fariam um show diminuto, pois somente dois quintos da banda estavam presentes, mas mesmo assim souberam aquecer bem o público que chegava e se divertia com a sua música Pop contempôranea com muito House e Funk misturados. O calor do pequeno do palco deixava as coisas um pouco mais exigentes, logo, o grupo deveria capturar os ouvintes de cara antes que houvesse uma fuga para o ar circulante, tarefa facilmente alcançada em quase uma hora e meia de apresentação.

No setlist, músicas de todas as suas obras, com destaque para a dobradinha de Time Will com Isles, ambas de seu primeiro EP. No entanto, ver Mountain Tops materializado e construído diante de nós foi surpreendente – mostra que o quinteto toma diferentes formas ao vivo, todas transparecendo muita atitude de palco, mesmo que a sua temática puxe sempre para o lado melancólico e leve, mas distorcido do Rock Alternativo. Às vezes, o grupo se torna um trio de guitarristas que seguem um mesmo ritmo proposto pela bateria (excelente com seu groove constante) e por um baixo melódico com mais forma e peso. No entanto, também pode ser orquestrado no violão, ter auxílio de um sintetizador e por ventura de uma caixa que funciona como rudimento percussivo. A combinação não poderia ser mais eficiente com voz de deliciosa de André Travassos.

Entre riffs de guitarra que emanam de Built to Spill a Pavement, o quinteto surpreende pela condução entre cada um de seus instrumentos – diferentes efeitos são oferecidos a cada membro enquanto cada linha é extremamente bem pensada e construída para que sempre um segundo compasso possa desacelerar tudo, trazer o público à dança intimista e, na maioria das vezes, solitária, pessoal, como na instrumental Random ou na letárgica e linda Desolation Peak, que se tornam companheiras para uma viagem, ambas da leveza à distorção em questão de segundos. Lost, Cause I Surrender é talvez a sua música mais Psicodélica, cheia de phaser, e que agradaria um fã de Tame Impala desorientado. Entretanto, a sua proposta é outra – músicas como Hypnosis ou Monolog Blues nos caminham para os anos 1990 com uma facilidade de assimilação que chega a assustar. Aliás, apesar de seu evidente maior peso ao vivo, os músicos nunca afastam o público, somente o cativam como bons mineiros, aos poucos.

Se agora com Mountain Tops a tendência é que a banda se torne mais conhecida, principalmente por ter a oportunidade de abrir para o iminente show de Real Estate em São Paulo, os músicos já pareciam prontos há muito tempo. Agora, parecem dominar uma técnica apurada, honesta e que encanta em bastante, sendo a construção ao vivo de Astronaut Adrift o seu grande momento, dada a complexidade de instrumentos e adendos necessários para sua realização. Por fim, independente do instante, sereno, colérico ou distorcido, Câmera soube manter o seu público atento, contente e surpreso. Como tantas influências poderiam ser consolidadas em nosso país? Se alguns precisam admirar o estrangeiro antes do semelhante, qualquer pessoa desprevenida acharia que o grupo era de outro país pela cantoria em inglês, o que por si só já divertiria. No entanto, no meio disso tudo, o sotaque mineiro não negava que eles são brasileiros, nos confortando ao saber que a nossa cena está cada vez mais forte, criando verdadeiros músicos do tipo exportação, não o contrário. Aguarde com ansiedade o seu próximo show.

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ARTISTA: Câmera
MARCADORES: Casa do Mancha

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.