Festival No Ar Coquetel Molotov 2012 – Recife

O evento na capital pernambucana reuniu nomes como Moraes Moreira, Thiago Pethit, Blonde Redhead e Rain Machine em sua edição desse ano

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Fotos: Flora Pimentel/Divulgação
Nota: 4.5

A nona edição do Festival No Ar Coquetel Molotov, marcado por apresentar ao público do Recife excelentes artistas da música alternativa mundial e novos nomes do cenário musical pernambucano, começou seus trabalhos na última sexta-feira (21) sem muito alarde. As atrações escolhidas para a abertura do evento foram um tanto mais plurais que o habitual Indie Rock dos primeiros anos do Festival, porém entre os nomes não havia uma grande estrela que impulsionasse, por exemplo, o esgotamento dos ingressos, como ocorreu no dia seguinte, que reunia artistas tais o trio americano da Blonde Redhead e Moraes Moreira.

Ainda assim, um público numeroso compareceu ao Centro de Convenções da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde os 16 shows que compunham a programação do evento foram realizados. As apresentações, por sua vez, foram bem interessantes, tendo como grande destaque do primeiro dia o show da americana Rain Machine, com o vocal potente de Kyp Malone, do TV On The Radio, e repleta de experimentalismo diluído em Rock e Blues.

A sexta-feira foi ainda marcada por boas performances de Siba, continuando a turnê de seu elogiado disco Avante (muito melhor de ser conferida em um teatro, do que nas anteriores apresentações ao ar livre), Os Sertões, liderado por Clayton Barros, ex-Cordel do Fogo Encantado, estreando nos palcos e Lucas Santtana, que, movido ao que contou ser “guaraná com noz moscada”, fez um intrigante show do excelente disco lançado por ele esse ano, O Deus que Devasta mas Também Cura, com direito à participação inesperada de dançarinos anônimos da plateia durante a execução de um carimbó instrumental. Esse, aliás, foi um dos momentos mais legais da noite, comprovando que, para ser bonito, o céu nem sempre precisa de estrelas (argumento fortalecido pelos shows do palco secundário na Sala Cine, com artistas menos conhecidos como ruído/mm e Madrid, que precisou pedir desculpas ao público por não poder fazer uma apresentação mais longa).

Já no sábado, alarde foi o que não faltou. Pode parecer mentira, é fato, mas quando Thiago Pethit fazia o primeiro show da turnê de seu novo disco, Estrela Decadente, no palco do Teatro da UFPE – como uma das atrações da segunda noite do festival No Ar Coquetel Molotov –, um meteoro (ou, no popular, “estrela cadente” de verdade) cruzava o céu do Recife, no último sábado (22). Embalado pelo convite à dança do hit Pas de Deux e encantado com a performance glam do cantor, bem diferente do tímido Pethit que participou do show de Tiê na edição de 2009 do festival, o público permanecia alheio ao fato que virava manchete nos noticiários locais. Contudo, lá no teatro lotado, se sabia que o charme que só as estrelas decadentes conseguem ter caiu como uma luva para o som underground do paulista. Ainda mais quando ele surgiu com os versos “I’am so dandy, nothing in this world can save me”, de sua Dandy Darling, com ares de David Bowie.

Dali em diante, nem a fofura de Mapa-Múndi (integrante do Berlim, Texas incluída no repertório porque é “fácil de cantar junto”) foi capaz de desfazer a imagem sensual que tomou conta de Pethit, obrigado a ouvir gritos de “seu gato” e “lindo” entre as músicas. E se alguma meiguice do Thiago de outrora ainda poderia ser notada, ela sumiu completamente quando Devil in Me veio avisar num Blues que ele era o próprio diabo. O cantor até tentava fazer a plateia participar mais do show, instigando todo mundo a dançar e ficar em pé na incensada Nightwalker. Mas o público ainda parecia surpreso com o que via no palco e queria mesmo era assistir atônito à participação incrível e teatral de Cida Moreira, em Surabaya Johnny, perguntando magoada porque havia sido abandonada e pedindo rancorosa para que o personagem da música tirasse o cachimbo da boca, com direito a usar “porco” como vocativo.

“Como continuar depois disso?”, perguntou o artista após se despedir de Cida, ecoando o que estava na cabeça de todos. A noite já havia começado bem intensa com a apresentação do pianista pernambucano Vitor Araújo, que fez um show catártico, acompanhado de uma mini orquestra e frases absorventes em um telão, para o lançamento de seu também segundo disco A/B – mostrando igual amadurecimento de carreira ao revelado por Thiago Pethit, ainda com direito a All Star, mas sem necessidade de macular o sublime do seu piano com floreios desnecessários. Ainda desembocaria no aguardado show da Blonde Redhead, famosa por suas etéreas distorções musicais e vocais marcantes. O paulista escolheu terminar com um prenúncio: “Alguma coisa vai acontecer”, cantado em Moon, que encerrou o setlist. E acertou em cheio. O que se seguiram foram as duas apresentações emblemáticas dessa edição do Coquetel Molotov que, mesmo com baixo orçamento, mostrou que sabe trazer aos recifenses shows com enorme relevância.

A Blonde Redhead deixou o público em êxtase, imerso no show, com olhos fechados, curtindo cada nota da guitarra. Os quarenta minutos limitados para as apresentações impuseram um repertório pequeno, porém muito bem escolhido, com grande destaque para o disco 23, o mais Pop da banda. Em faixas como Dr. Strangeluv, os norte-americanos foram ovacionados pela plateia já nos primeiros acordes. A deliciosa voz de Simone Pace cantava que ela sempre pensou que poderia nos salvar, mas a gente sabia que ela não poderia ficar a noite toda. E, por mais que todos os presentes compreendessem a brevidade da apresentação e quisessem o show de Moraes Moreira, que encerraria o festival cantando o clássico álbum Acabou chorare, a sensação que ficou foi a de que a performance havia sido, ainda assim, extremamente curta. Se me permitem o trocadilho ruim, talvez mais rápida que o tal meteoro avistado na cidade e usado como jogo de palavras para falar do disco de Thiago Pethit no início desse texto.

Felizmente, o mesmo não se sucedeu com o ex-Novos Baianos. Grande atração do festival, Moraes Moreira teve o direito de abusar um pouco mais do tempo e não apenas tocou todas as faixas do disco de 1972, que completava 40 anos, como passeou por outras pérolas do inventivo grupo criador do que foi eleito o melhor álbum da música brasileira. Entre as músicas, Besta é Tu, A Menina Dança, Eu Sou o Caso Deles e Vagabundo não é Fácil, cantadas em coro pelo público que assistiu ao show em pé. Destaque para os bons agouros da canção que batizou o disco: Acabou Chorare fez todo mundo cantar de peito aberto, emocionado. “Vi o sapo na lagoa, entre nessa que é boa”, convidou Moreira, antes de presentear os recifenses com frevo, samba e até bis escolhido a dedo: Asa Branca, de Luiz Gonzaga, que também está de aniversário neste ano, comemorando seu centenário. Ao final dos versos “Eu te asseguro, não chore não, viu, eu voltarei, viu, meu coração”, ele deixou o pedido: Moraes Moreira no Carnaval do Marco Zero, ano que vem.

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Autor:

O avesso do bem comportado, bem afinado e de bom gosto. Tí­pica jornalista.