Four Tet – Sónar SP 2012

DJ surpreende ao criar ao vivo sons que relaxam e, ao mesmo tempo, fazem dançar, colocando o público do festival em um interessante transe

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Fotos: Daniel Vorley
Nota: 4.5

Kieran Hebden, mais conhecido como Four Tet no meio eletrônico, é um DJ e produtor famoso por suas batidas minimalistas em músicas produzidas normalmente com instrumentos de verdade (guitarras, baixos, etc), construindo ao final um som abstrato e delicado. Complicado? Nem tanto. Ao ouvir, por exemplo, o seu mais recente álbum There is Love in You, vemos músicas instrumentais construídas milimetricamente, com arranjos belos sempre acompanhados de bases eletrônicas minimalistas. É o tipo de som que, ao ser orquestrado nas pickups, consegue alcançar até os Indies mais chatos.

A importância do Four Tet na música eletrônica se faz notável através dos diversos remixes, os projetos com Burial e Thom Yorke e até a gravação de um show (Fabriclive 59) no famoso clube de música eletrônica em Londres, o Fabric. Como um dos headliners do palco Sónar Village neste sábado, toda a delicadeza demonstrada em seu último álbum não era possível ser realizada num set de DJ, o que me deixou curioso dado que o seu trabalho gravado ao vivo tampouco remetia à verdadeira essência do produtor, sendo muito Pop em diversos casos. Ao vivo, fez uma apresentação digna de um grande festival de música eletrônica como o Sónar.

Começando seu set com diversas luzes sendo jogadas para a pista e sobre o palco, o DJ impressiona pela capacidade de criação de texturas sonoras, pequenos sons que vão se sobrepondo e criando ao mesmo tempo uma batida complexa, abstrata. Quando se vê tudo isso ao vivo, se percebe a beleza que o produtor faz ao vivo. Sendo minimalista até nos vídeos demonstrados no telão, muito semelhantes àqueles do Windows Media Player, e mesmo nas roupas (camiseta amarela, de boa), o DJ mostra que pode criar músicas simples nas sensações que proporciona ao ouvinte e, ao mesmo tempo, complexas em todas as texturas feitas, batidas criadas e bases colocadas.

Algumas músicas identificavéis logo de cara, e outras identificáveis somente através de algumas camadas, marcaram o setlist do DJ. O público parecia em transe com a música, apesar de calma, relaxante, é construida pras pistas, essencialmente pra dançar. As músicas crescem até o ponto em que o transe vira dança e, quando chega ao ápice da música, Four Tet começa a descontruí-la lentamente, camada a camada, até sobrar somente a espinha dorsal da música. Assim são as músicas do DJ, construídas e descontruídas, criadas com simplicidade e beleza. Era o som perfeito para completar a vibe instrumental, sentimental, que o Mogwai havia feito no mesmo dia no festival.

Quem viu o Four Tet naquela noite teve uma experiência sonora ímpar em um festival que buscava isso. Conseguindo demonstrar genialidade em suas músicas, o DJ fez o que parecia muito difícil para este que vos escreve: transparecer a beleza e a essência do seu trabalho gravado em algo dançante, empolgante e original. Com certeza, o próximo show dele não será igual a este, e isso é o que diferencia um bom DJ dos demais: sair de um show sem saber qual era o setlist, mas saber que a obra do mesmo estava presente ao vivo. Que venham outras oportunidades de ver um show único do Four Tet.

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ARTISTA: Four Tet
MARCADORES: Sónar SP 2012

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.