Joan Jett And The Blackhearts – Lollapalooza 2012

Sem frescuras, sem superprodução e sem feminismos, veterana do rock fez show autêntico que agradou os que não perderam tempo guardando lugar para o Foo Fighters

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Nota: 3.5

Falar de mulheres no rock é quase um paradigma, pois tratar isso como assunto é automaticamente estabelecer “mulheres no rock” como um gênero. Aliás, é o que muita gente faz – o Last.fm é cheio de tags como “female rock” e afins. Joan Jett é vítima dessa ladainha: volta e meia ela aparece em matérias nas quais os repórteres querem saber sobre o papel da mulher na música, sobre o pioneirismo das Runaways, sobre como é difícil fazer música em um mercado dominado por homens e blá blá blá. Joan Jett é sempre mais lembrada pelo que ela representa do que pelo que ela efetivamente faz. E é uma pena, porque ela faz muito.

Subir ao palco de um festival como o Lollapalooza armada apenas de uma banda bem-ensaiada, por exemplo, é uma das coisas que ela faz muito bem. Em uma época em que shows de figurões e figuronas do pop são marcados pela teatralidade (Beyoncé e Green Day, estamos olhando para vocês), Joan não quer nem saber de frescura. Tanto que já abre o show queimando um de seus maiores hits: Bad Reputation, em que abre dizendo “Eu não dou a mínima para minha reputação / Nuca tive medo de nenhum desvio”. Um discurso combativo para uma plateia que a recebe de braços abertos – essa é Joan Jett.

Plateia essa que, sim era formada principalmente por mulheres. Enquanto os marmanjos se apertavam guardando lugar para os Foo Fighters, as moças mais espertas aproveitavam um dos shows do ano no outro palco. E elas sabiam as letras da maioria das músicas e cantavam junto com Jett, que, à vontade, interagia com o público, sorria e andava pelo palco distribuindo sua atenção à plateia.

Cherry Bomb, clássico das Runaways, foi outro hit jogado logo no começo e cantado em coro. Daí para frente, a cantora alternou sucessos com músicas menos conhecidas e também canções inéditas. Porque ela nunca vem para o Brasil, mas, quando vem, toca três novas – essa é Joan Jett.

“Há pessoas que te apoiam quando você está por cima, mas desaparecem quando está por baixo. Quando você encontrar uma dessas pessoas, você pode cantar essa música na cara delas”, disse uma mordaz Joan antes de mandar Fake Friends, para alegria do público. Tocando guitarra em todas as faixas e fazendo solo em alguns momentos, Joan estava sempre em total sintonia com sua banda e parecia preferir muito mais o papel de frontwoman do que de artista solo – tanto é que faz turnê como “Joan Jett And The Blackhearts”, ainda que seu nome sozinho garanta o público aonde quer que ela vá.

Sexual (sua guitarra trazia dois pictogramas femininos acompanhados da palavra “fetish”), mas não erótica, Joan privou-se de fazer as insinuações que se espera de uma fêmea poderosa em cima de um palco. Jogou limpo com o público nesse e em outros aspectos: apenas duas músicas das Runaways foram tocadas, por exemplo. I Love Rock ‘n’ Roll, cover dos Arrows que ela reformou e tomou para si, poderia até ser entendida como uma obrigação, mas Joan parece divertir-se tanto tocando que ficaria difícil acreditar.

Quando o show encerrou com o ótimo cover de A.C.D.C., do Sweet, Joan deixou o palco do Jockey Club sob os aplausos sinceros de quem sabia o valor de sua presença ali. A cantora ainda apareceria no bis do Foo Fighters, mas seu recado já estava dado. Sem preocupação em agradar, sem clichês, sem muletas pirotécnicas, sem feminismos e sem concessões, Joan Jett fez um dos shows mais autênticos do festival. Sorte de quem viu.

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Autor:

Jornalista. Acredita nos duendes enroladores de fones, mas não no hype.