Los Hermanos em São Paulo

Quarteto abre epicamente a passagem da turnê pela capital paulista, com um passeio por sua discografia que revela a relevância da banda para a música brasileira

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Nota: 5.0

É difícil negar a importância e o carisma dos Los Hermanos junto ao cenário musical brasileiro, seja pela suas composições e arranjos, ou por seus fãs fanáticos, ou pela personalidade mais contida dos seus integrantes diante do sucesso. O grupo entrou pra história da música nacional.

Quando se fala em Los Hermanos, todos sabem do que se trata, mesmo que seja algumas vezes através visão errônea de que “são aqueles caras da Anna Júlia”. Após o recesso em 2007, o grupo fez algumas apresentações pontuais pelo país como o “show de abertura” para o Radiohead em 2009 e um concerto no SWU em 2010. Nesse hiato, seus integrantes partiram em carreiras solo, com Marcelo Camelo lançando dois álbuns e Rodrigo Amarante participando do Little Joy e fazendo parcerias por aí com outros artistas, como Devendra Banhart, por exemplo. Ao anunciarem esta turnê nacional, co-produzida pela Som Livre, e terem todos os ingressos esgotados em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, a questão que não sai da cabeça dos seus fãs é: “Será que eles realmente vão voltar ou é só mais uma turnê pra matar a saudade?”.

Ao chegar no Espaço das Américas quase em cima da hora e ter que pagar absurdos 50 reais pra parar o carro, Jimi Hendrix ecoava pelo hall. A banda ainda não havia entrado e eu poderia me alegrar com esse gênio por enquanto. Depois de pegar a boa cervejinha pra acompanhar um show, podia me considerar pronto. Luzes se apagam e o que vemos é um verdadeiro êxtase do público, como se o mundo fosse acabar naquele momento, quando começou O Vencedor e o Espaço das Américas ecoou todas a vozes presentes – algo que se faria presente durante todas as 28 músicas do show. Vale ressaltar a semelhança da letra com o estado do Los Hermanos durante o recesso: “eu que já não quero mais ser um vencedor, levo a vida devagar pra não faltar amor”. Retrato pra Iaiá, com Amarante assumindo os vocais pela primeira vez, Todo Carnaval tem seu fim, O Vento e Morena continuavam uma sequência matadora logo de início, indicando que se “todo Carnaval tem seu fim”, os fãs iriam aproveitar o show de forma eterna enquanto durasse. O palco montado com telões gigantes em formato concâvo davam mais intensidade para apresentação, alternando entre vídeos pré-gravados e imagens da banda tocando ao vivo na maioria dos casos, com câmera go-pro ligadas a microfones, bateria e bancadas.

Com Camelo e Amarante alternando os vocais entre cada música, a banda se mostrava bem disposta a saciar os fãs que não os viam em um show “pequeno” em São Paulo desde 2007 e lançava sorrisos para os ecos vindos do público, deixando para os fãs cantarem as músicas em diversos momentos. Todos pulavam, todos cantavam, e todos tinham fôlego para isso. A sensação era de que o público estava em transe com aqueles caras barbudos e eles respondiam da mesma forma, o que levava a transparecer a emoção de todos. Quando Sentimental começou a tocar, foi talvez um dos momentos mais bonitos do concerto, com a música crescendo junto com o público. Para conter as lágrimas de tristeza e transformá-las em alegria, a banda mandava logo em seguida A Flor, Cara Estranho e Condicional, e colocava todos pra pular novamente.

O que vale ser também ressaltado na apresentação do grupo são os músicos de apoio, principalmente os músicos de sopro: saxofone, trompete e trombone. Durante toda a carreira do grupo, estes intrumentos levaram o sentimentalismo e a emoção a outros níveis, que não seriam suplantados somente pelas letras e melodias. É dificil não se arrepiar quando entra o trombone em, por exemplo, Do Sétimo Andar ou o trompete em A Outra. O ritmo animado das músicas da primeira fase do grupo também precisa desses músicos, dado o teor Ska dessa fase. Particularmente sempre que esses instrumentistas voltavam ao palco, um sorriso aparecia no rosto deste que vos escreve.

Voltando ao show, antes de acabar o setlist, os Los Hermanos tocariam uma música nova, Um Milhão, boa por sinal e que nos traz esperança de que quem sabe eles façam um disco novo e voltem à ativa. As últimas três músicas terminariam a noite de forma bela: O Velho e o Moço (”deixo tudo assim , não me importo em ver a idade em mim, ouço o que convém”), Conversa de Botas Batidas (com o baixisita/guitarrista de apoio cantando “vem vamos além, vão dizer que a vida é passageira sem notar que nossa estrela vai cair”) e, pra depois terminar com o que talvez seja maior clássico do grupo, Último Romance (com todo mundo cantando “e se o tempo for te levar , eu sigo essa hora e pego carona…pra te acompanhar”) e o final épico nos metais também sendo cantado nota a nota.

A banda saía do palco após 23 músicas,todos esperando o bis, que eu, sinceramente, não achava que fosse ocorrer, dado os setlists dos outros shows deles pelo Brasil. Mas, como uma prova de amor ao público presente, eles viriam pra tocar mais 5 músicas, com ênfase ao primeiro disco da banda, para o delírio dos fãs: Dois Barcos, Tenha Dó, Anna Júlia, Quem Sabe e Pierrot colocariam todos pra pular por uma última vez, pelo menos até as próximas datas dessa turnê em São Paulo.

Ao término do concerto, era clara a importância do quarteto para o cenário musical do Brasil, uma banda que toca além do que se vê no Rock nacional. Se também temos a sensação de que se os Los Hermanos realizarem turnês esporádicas, o público estará presente para cantar e se emocionar, temos também a sensação de que será um desperdício para a música brasileira se a banda se contentar com tão pouco, dado que não são muitas as que conseguem trazer o rock de novo para o grande público hoje em dia.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.