Mel Azul – Red Bull Station, SP

Banda celebrada do underground paulistano mostra seu novo álbum

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Fotos: Marcelo Fontana
Nota: 4.0

O bonde do esgoto chegou, vida longa ao bonde. Na apresentação prévia de seu novo disco, Mel Azul mostrou por que é uma das bandas mais celebradas na cena underground paulistana em um concerto sujo, resiliente e psicodélico na festa do selo UIVO, no último sábado na Red Bull Station. Seu mais novo disco, Bonde do Esgoto, esperado para algum momento deste segundo semestre marca a transição de um grupo que não perdeu a identidade, apesar das novas sonoridades e inspirações.

E que novas vertentes os paulistanos estão almejando – saindo de um Rock Psicodélico de raiz, baseado na viagem lisérgica regada por Jam Sessions e puro experimentalismo visto em Luz Além para achar a sujeira na boca do esgoto. Algo como se David Lynch fosse fazer uns filmes na boca do lixo, famosa região cinematográfica de São Paulo. As letras do (antes instrumental) grupo misturam comédia, drogas e subversividade sem nunca perder o groove, força motriz do grupo desde o seu começo. No entanto, se antes tínhamos a psicodelia vinda dos instrumentos, agora ela é auxiliada por MCs que trocam de papel a cada faixa e interagem com público de outras formas.

Se antes éramos incentivados a viajar somente, agora com os vocais, somos convidado pra bagaceira: pro Rap Psicodélico, gênero que o grupo criou e que se identifica da cabeça aos pés com o quinteto. Riffs de guitarra são construídos e auxiliados por sintetizadores atmosféricos para construir o clima de letargia enquanto Dedo Sujo, MC De La Veiga, MC Moleque, Prodígio e Doctor Hermann duelam nas rimas que, se não são rápidas como as de Marcelo D2, Black Alien e B-Negão, seguem a mesma metodologia do finado Planet Hemp, instrumental fino e batidas, feitas neste caso por Nico Paoliello (Garotas Suecas) na bateria. Estes elementos, os paulistanos sempre construíram e usaram ao longo de sua carreira, mas agora se materializam em um show divertido, usualmente viajado, mas, acima de tudo, pesado.

Nas transições entre faixas, Jams para as coisas fluirem melhor e nas músicas de Bonde do Esgoto que grande parte do público já sabia de cor – alguns singles vem sendo mostrados em concertos na cena underground paulistana – é onde está a diversão da apresentação. Em Érica, viciante faixa com seu refrão grudento e letra suja sobre um “fictício” amor – “Érica, farmacêutica, é meu remedinho, é meu remedinho”- ou O Nome Dele É Garoto, somos jogados a um som inóspito, frenético e que não deixa ninguem parado. É Rap sendo construído ao vivo, na frente de todo mundo que não conseguia parar de dançar ou pelo menos mostrar um sorriso de canto de rosto com a ousadia mostrada.

Fundamentalmente, é preciso respeito e identidade para fugir de suas raízes puras e incorporá-las a um gênero distinto – no caso, o Rock Psicodélico ao Rap. Neste quesito, surge ao vivo Essa É Pras Criança, “pra elas aprender” que o som (apesar da diversão e brincadeiras, a zueira sem limites) é sério em sua construção grooveada, psicodélica. Nos deixa aguçados para poder ouvir no disco faixas como Doctor Hermann, um dos momentos mais escapistas de todo concerto e que nos mostrou que, no meio dessa mistura fedida e suja, pode surgir Soul e Pop também – uma sonoridade que só mesmo tendo contato para entender. No último sábado, tivemos o contato prévio e agora esperamos o Bonde do Esgoto materializado e feito para ser ouvido em qualquer lugar.

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ARTISTA: Mel Azul
MARCADORES: Red Bull Station

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.