Roger Waters em São Paulo

Confira todos os detalhes da apresentação do ex-Pink Floyd em sua primeira noite da turnê The Wall em São Paulo, em que ele subiu ao palco do Morumbi para um show histórico que revisitou os melhores momentos de sua carreira

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Fotos: Edson Lopes Jr. /Terra
Nota: 5.0

Algo diferente aconteceu na noite do primeiro de Abril em São Paulo. O clima era propício para um grande espetáculo : noite agrádavel , a chance de chover se dissipando pelo vento e uma lua caprichosamente crescente com um dark side. Nesta noite, o ex-baixista de um dos grupos mais seminais da história da música, o Pink Floyd, iria apresentar o seu disco mais íntimo e pessoal de forma cinematográfica. O ex-baixista , era Roger Waters e o álbum era o The Wall.

Álbum duplo e conceitual, lançado no final de 79, The Wall surgiu a partir de uma turnê da banda em que Waters estava tão decepcionado com o público de seus shows que imaginou um muro entre o palco e audiência. Duas demos foram criadas por Roger e disponibilizadas para que os membros da banda escolhessem aquela que julgavam melhor para tocar como projeto do próximo álbum. Sabiamente, escolheram a demo mais raivosa, desoladora e temática, chamada no primeiro momento de Bricks on the Wall. Dividido em 4 LPs ou melhor, atos, quando lançado em vinil, o show consiste em duas apresentações, separadas por um intervalo para carregar as energias novamente.

Realmente é difícil fazer uma resenha de um show que mais se assemelha a um musical do que propriamente um show de música. Como aparatos, temos: fogos de artíficio, um muro gigantesco (137 metros de largura e 11 metros de altura), projetores com uma definição absurda e o muro como tela, além de avião, porcos voadores, fantoches, uma banda gigantesca, com três guitarras pra fazer aquilo que David Gilmour criou, um coral de crianças e um grupo de backing vocals, ou seja, um aparato audiovisual impressionante. Já tinha visto este mesmo show antes, em Lisboa, e tinha sido a maior expêriencia da minha vida em termos musicais. Desta vez, o show era o mesmo, mas o cenário diferente: ao invés de um ginásio o show era num estádio e, ao invés de ver sentado em uma cadeira, eu estava na pista, de pé, ou seja, uma experiência muito melhor.

Com 20 minutos de atraso agonizantes mais devidos à ansiedade do que por que qualquer outra coisa, o show começou. In the Flesh? como uma pergunta, surge no palco, deixando todos confusos, e com ela os fogos de artíficio, um show visual que recebeu o seguinte comentário após um avião descer dos holofotes do Morumbi até o palco e explodir em cima da cabeça de Roger: “ Se o show acabasse agora, já valeria a pena”. Era ainda a primeira música. O espetáculo começava, com os projetores interagindo junto com a música e a sensação era de estar em um grande drive-in que passava o filme homônimo. As próximas cinco músicas seriam incríveis, a começar por The Thin Ice com um bebê chorando, e passando fotos no telão de soldados/pessoas mortos, com ênfase para homenagem a Jean Charles, que depois teve sua foto projetada em um tijojo no muro, “just a brick in the wall”. A trinca seguinte, Another Brick in the Wall Part 1, com seu solo etéreo, e Roger exumando os demônios de sua infância conturbada com seu pai ao cantar “Daddy what else did you leave for me?” ,The Happiest Days of Our Lives é, na verdade, uma parte dentro desse ato, dando uma sequência progressiva para música como um todo, e deixando todos ansiosos para quando entrasse a introdução de guitarra mais famosa da banda em Another Brick in the Wall Part 2. O hino entova pelo estádio e confesso que era difícil não se arrepiar com todo o ambiente criado. Como fã incondicional de Pink Floyd, essa trinca sendo tocada ao vivo realmente impressiona. Na sequência, viria Mother, com sua letra sincera e com uma projeção de Roger Waters na turnê original do álbum, aos seus 30 e poucos anos de idade. Era o fim do primeiro ato.

A próxima sequência de músicas interagia com as imagens no telão, ao mesmo tempo que a banda ia se escondendo aos poucos atrás de um muro sendo construido. É impressionante como escutar o álbum ao vivo é muito melhor do que simplesmente ouvi-lo em mp3, vinil, etc., e não digo isso pelo simples fato de “música ao vivo ser muito melhor do que em estúdio”, mas pelo fato do disco inteiro ter as texturas sonoras mostradas junto com o telão no palco, pequenos sons ambientes e gravações de telefone, que no álbum ajudam na transição de uma música para outra e no show servem como adendos visuais. Tudo tem muito mais intensidade. A toada do segundo ato é bem assim, com a música em muitos casos servindo como uma trilha-sonora de um filme (e que trilha sonora!). Young Lust, criação de Gilmour, é perfeita ao vivo mesmo sem ele, com um strip-tease sendo mostrado no telão.Nada mais apropriado para esse Rock sexy. O show continuava e o tom começava a ficar mais tenso, sombrio e a banda sumindo atrás do muro. Roger estava se escondendo lá atrás, como quis ao pensar no conceito do álbum. Mas não, antes disso, viria a última parte de Another Brick in the Wall Part 3, para depois o último tijolo ser colocado em Goodbye Cruel World – nome perfeito de música para ser tocada antes do intervalo.

A segunda parte, o terceiro ato, do show começa logo com Hey You e Roger cantando “Hey you, Out there in the cold, Getting lonely, getting old, Can you feel me?”- um dos grandes sucessos do Pink Floyd colocava todo mundo de pé para sentir o que estava acontecendo naquele dia primeiro de abril. Na sequência, teve Is There Anybody Out There?, com pedaços do muro sendo tirados pouco a pouco, e Roger perguntava se “tinha álguem aí” ao mesmo tempo que afirmava que ele estava lá no palco tocando para todos. Nobody Home , continuava o show seguida por Vera, canção que me lembra a minha mãe, pois é o nome dela, virando uma continuação de Mother para mim. Nossa, o Pink Floyd te faz lembrar até da sua mãe! Bring the Boys Back Home, soava como um cântico de guerra para trazer os meninos de volta para suas famílias. Quando chegam em casa, eles tem uma consulta com um médico, e era a vez de Comfortably Numb . Confesso que essa é minha música favorita do Pink Floyd, não só pela letra maluca, mas pela transição de vocais, no original com Roger e Gilmour fazendo as vozes de médico e paciente, e pelo solo mais inspirado desse guitarrista. Mais uma vez, ao vivo soava muito melhor, mesmo sem Gilmour e com o vocalista de apoio fazendo a sua voz. O fim do penúltimo ato não poderia ser mais perfeito do que isso.

Após deixar todos confortavelmente entorpecidos, The Show Must Go On soava quase como que um convite para acordarmos para vida e continuarmos a apreciar o show em seu último ato, pois logo em seguida viriam instrumentos de sopro fazendo os sons de uma marcha militar para começar In the Flesh, desta vez sem interrogações e com um porco, símbolo característico do Pink Floyd famoso em seu disco clássico Animals, voando sobre a cabeça do público. Era o clímax do show, o momento de cantar abraçado com a galera, como se cantasse um hino. Após esse momento sublime, no muro aparecia uma mensagem em portguês dizendo que a próxima música era dedicado ao público: Run Like Hell. “You better run all day, And run all night, And keep your dirty feelings deep inside” cantava Roger para os brasileiros antes das 4 últimas músicas. A sequência visual tomava mais ênfase para as músicas, era o fim do musical/filme/espetáculo, com Roger cantando em um megafone em Waiting for the Worms, para depois dizer que queria ir embora em Stop: “I wanna go home! Take off this uniform, and leave the show!”. The Trial, é o julgamento final do espetáculo, mostrando que estávamos diante de um músical/filme e não de um show, pois era exibido o filme The Wall enquanto a banda tocava atrás do muro. No fim do ato, o muro explode e Outside The Wall encerrava a noite.

O maior espetáculo do mundo tinha acabado e todos confusos, sem entender o que tinha acabado de acontecer diante dos seus olhos. Era visível o sorriso no rosto de todos e o público havia vivido uma experiência incrível e única, todos os quase 70 mil espectadores sabiam que espetáculo tinha ficado para história. O show em Lisboa havia sido a maior experiência musical da minha vida e o de São Paulo conseguiu elevar isso ao cubo, um verdadeiro show para estádios sendo realizado no dia mentira. Se você não teve a chance de ver esse espetáculo, não pense duas vezes e compre os ingressos para o show dessa terça-feira em São Paulo, ou você perderá o maior show já feito em termos de produção,música e experiência. E corra, pois boatos correm que essa será a última turnê temática de Roger, após uma década de In The Flesh, Dark Side of The Moon e agora a The Wall. Você com certeza não se arrependerá.

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MARCADORES: Morumbi

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.