Tiago Iorc e sua “Zeski Tour” em São Paulo

Músico mostra na capital paulista o que é ser um artista contemporâneo em duas noites de muita música e contato direto com o público

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Fotos: Mariana Marques
Nota: 4.5

Microfone no pedestal com alguns pedais em volta, tudo em frente à imponente cortina vermelha do Teatro Geo, era a vista que tínhamos logo antes de começar os shows que Tiago Iorc fez de sua Zeski Tour em São Paulo no último fim de semana, duas noites marcadas por uma atmosfera convidativa e emocional compartilhada pelo músico e pelo público durante e após os espetáculos.

Quando as luzes se apagam, a faixa instrumental que dá título ao ótimo álbum Zeski tocada em playback permite a imersão no universo de Iorc compartilhado no palco com ajuda dos músicos Leomaristi (baixo) e Guto Teixeira (bateria e programações eletrônicas). Após um pequeno silêncio de suspense, o vocal do músico enuncia o primeiro verso de Um Dia Após o Outro e a plateia demonstra sua aprovação.

Se os públicos dos dois dias exibiam diferenças entre si, havia ainda mais semelhanças. Na sexta-feira, a plateia demonstrava sua ansiedade com muitos e muitos flashes das câmeras, que já denunciavam um Iorc posicionado ao microfone, enquanto a do dia seguinte fazia isso aos gritos e aplausos, um alto e bom som que durou até o fim do show – “Essa é, de longe, a plateia mais animada da turnê até agora”, disse o cantor em determinado momento no sábado.

Tiago Iorc

Na sequência da música de abertura, vinha, de uma só vez, a animada Life of My Love, Story of a Man e Nothing But a Song, uma pequena viagem rumo ao passado que culminava em um pequeno diálogo de Tiago com o público antes de anunciar What Would You Say, que aparece nos shows com um poslúdio instrumental que faz esse ser um dos pontos mais altos da noite.

Após When All Hope Is Gone, do primeiro álbum, baixista e baterista saem do palco para enquanto Tiago afina o violão para Tempo Perdido, em uma intermissão acústica entre os dois principais atos do espetáculo, que conta ainda com sua versão para The Scientist, da britânica Coldplay. Enquanto ele toca Yes and Nothing Less, os dois outros músicos retomam seus lugares e o segundo ato se inicia.

Tiago Iorc

Toda essa narrativa flui muito bem em pequenos conceitos e detalhes, como o “tell me your secrets” de uma faixa que se repete no início da outra, a harmonia entre os acordes de uma canção para a próxima sob o timbre do violão ou o reflexo do músico na arte de outros compositores. Zeski é um encontro de Tiago consigo mesmo e sua turnê é uma oportunidade mais intensa do público ter também essa experiência de conhecê-lo melhor.

Isso se dá tanto no palco, quanto ao fim do show. Quando soube que Iorc se encontrava com todos os fãs, todos, após a apresentação, não era nenhum exagero. No sábado, quando havia mais gente na fila para os autógrafos, fotos, abraços e sorrisos do que no dia anterior, foram mais de duas horas de meet & greet com uma simpatia heróica da parte do músico, visivelmente exausto após um fim de semana desses, mas sem perder por um segundo o sorriso e o bom humor.

Por falar nisso, o lado divertido dele ao brincar com os outros músicos e com a plateia gera empatia suficiente para ele deixar de ser Tiago Iorc e se tornar apenas Tiago nas respostas aos aplausos, provocações e frequentes pedidos de casamento. E este seu lado pessoal, humano, é um bônus ao imenso talento que percebemos nos vídeos e discos e e concretiza ao vivo.

Tiago Iorc

Música Inédita foi outra que ganhou uma “versão extendida”, com direito a solos dos instrumentistas e, mesmo antes disso, Iorc deu conta dos vocais sozinho e Maria Gadú, que participa da faixa no disco, não fez falta, constituindo outro dos pontos altos do show. Antes de adentrar a imensidão de Shelford Road, ele equilibra a grandiosidade da música contando em tom pessoal sobre a conversa com a mãe que inspirou essa composição. Na sequência, outros dois hits de Zeski para fechar o espetáculo: It’s a Fluke e Forasteiro – e, nessa última, faltou talvez algum aspecto também maior na apresentação que fosse à altura da popularidade da faixa, não sei se pela necessidade tão integral das bases gravadas nessa música ou se pelo cansaço de fim de show dos músicos.

Mas isso não atrapalhou o espetáculo, mas o teria deixado ainda melhor, assim como mais músicas de Umbilical cairiam bem – embora elas facilmente destoassem do tom mais extrospectivo que as músicas escolhidas tem. Não dá pra discordar do quanto tudo é bem pensado, planejado e ensaiado para a mensagem ser passada. E se o espaço delimitado das poltronas de teatro ajudava a conter um pouco os ânimos do público, principalmente na sexta-feira, o bis (com My Girl, Fine e Quase Sem Querer, da Legião Urbana) fez todos se levantarem não só para os aplausos, mas para tomar a frente da plateia em uma grande celebração à música e à figura de Tiago Iorc – um músico que traduz com excelência o meio termo entre grande artista e “gente como a gente”, seja no palco ou fora dele, uma postura perfeitamente contemporânea evitada por muitos sem metade do talento ou carisma que ele demonstra naturalmente.

Tiago Iorc

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ARTISTA: Tiago Iorc
MARCADORES: Teatro Geo

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.